A força das canções

Um dia desses, meio sem querer, assisti ao encontro de Maria Gadú e Caetano Veloso na TV. Me chamou a atenção a interpretação da dupla para a canção Rapt-me Camaleoa. No verso: "adapte-me ao seu ne me quites pas" Gadú acentua o sotaque francês enquanto Caetano canta solto como se falasse português. Curioso. Me lembrei do preciosismo de Fina Estampa, disco em que ele canta em espanhol com diferentes acentos regionais registrando cada canção com sua particularidade. Na homenagem a Regina Casé faz sentido um certo abrasileirado na expressão francesa talvez pelo contexto histórico da composição, os anos 80, o non sense do grupo teatral Asdrúbal Trouxe o Trombone do qual Regina fazia parte. Tudo me parece mais adequado à uma soltura. Mas longe de mim querer adivinhar o que se passa na cabeça do compositor ou do intérprete. Só me chamou a atenção a diferença.

Patricia Palumbo, O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2011 | 00h00

Luiz Tatit diz que o cancionista, ao propor uma integração entre melodia e letra, deseja que em suas composições ocorra uma aproximação com as leis entoativas que regem o discurso coloquial. Quanto mais próximo da fala maior a identificação. Por isso as "licenciosidades poéticas" de Gilberto Gil e de outros autores populares se tornam tão deliciosamente palatáveis. E pelo mesmo motivo algumas "perversões" da entoação comum caem mal nos nossos ouvidos e outras nos divertem. Carlinhos Brown é um mestre nessas invenções que pervertem as regras da nossa língua usando com liberdade a mistura de português com inglês na mesma canção ou criando expressões. Adoro usar "tô vitimado no profundo" que está na canção Maria de Verdade. Não sei se ele inventou ou se recolheu de ouvir por aí.

É bonito também quando o compositor faz uso das nossas tão intrincadas regras gramaticais e linguísticas. Chico Buarque em 1971 fez Construção toda em dodecassílabos com rimas em paroxítonas. É um clássico, um sucesso na história de sua carreira e é ao mesmo tempo um complicado exercício. Coisa de gênio.

Zé Ramalho, outro erudito, usou muito bem a estrutura do cordel para seus temas épicos. Ele é um cantador sofisticado que traz na bagagem a tradição oral do nordeste. Em Beira Mar ele usa com precisão os versos alexandrinos da cantoria de viola conhecida como galopes à beira mar: 12 sílabas tônicas em cada uma das 10 linhas que compõem uma estrofe. Outro compromisso é terminar com a referência a beira do mar, o que Zé Ramalho faz lindamente.

Voltando a Gilberto Gil, em Metáfora ele diz: "ao poeta cabe fazer com que na lata venha caber o incabível". Às vezes o incabível na letra. Eu adoro a canção Eu Sei de Marisa Monte mas percebo a dificuldade de fazer a palavra músculo, com sua evidente silaba tônica, caber na melodia. Na música que deu o mote para esse texto, Caetano Veloso usa inflexões pouco comuns: rapte-me, capte-me, adapte-me. Língua complicada essa nossa e ainda assim é aqui no Brasil que nascem as mais lindas canções.

Antonio Maria, letrista, poeta, boêmio, romântico incurável, escreveu numa de suas crônicas para o jornal Última Hora sobre as canções e as pessoas da noite. Em novembro de 1959 faziam sucesso no rádio: Eu Sei Que Vou te Amar, de Tom Jobim e Vinicius de Morais; A Noite do Meu Bem, de Dolores Duran; e E Daí, samba de Miguel Gustavo gravado por Elizeth Cardoso. Segundo o observador jornalista cada uma das canções fez um efeito diferente no público das boates. A primeira fez o começo de inúmeros romances que se acreditavam sem fim. A segunda ensinava como enfeitar o sono do ser amado. E a terceira virou grito de independência e jogou luz aos casos secretos com os provocativos versos: "Proíbam tudo, tudo, botem avisos, fechem portas, ponham guizos, e o amor perguntará: e daí, e daí?" Copio aqui o desfecho da crônica: "É a força inevitável das canções - das verdadeiras canções - na alma amorosa das noites."

Pois no fim das contas é isso o que importa. O que dizem as canções para quem as ouve. Lógico que temos uma imensa curiosidade para saber de onde elas vêm, como são feitas, pensadas, estruturadas. Mas se o seu coração, involuntário, bate mais forte, a silaba tônica pode até trocar de lugar. Música é pra enfeitar a vida.

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