A força da ficção faz Macondo entrar no mapa do mundo

Macondo, a cidade imaginária conhecida em todo o mundo por meio da literatura de Gabriel García Márquez, o colombiano que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura de 1982 como um dos maiores escritores do realismo mágico latino-americano, está mais perto de se tornar uma cidade real e figurar nos mapas mundiais. Macondo foi o nome que García Márquez deu para sua cidade natal Aracataca no romance Cem Anos de Solidão, considerado sua obra-prima. Uma consulta popular será realizada por iniciativa do prefeito da cidade Pedro Javier Sánchez para mudar o nome da cidade para Aracataca-Macondo, na tentativa de transformá-la em pólo turístico.O projeto foi divulgado em 4 de dezembro do ano passado pelo El Tiempo, principal jornal colombiano, que agora estampa em sua edição online uma enquete para saber a opinião do internauta sobre a mudança de nome. Mas, se prevalecer o resultado parcial até às 18h30 horas de desta sexta, o nome real vai prevalecer em relação à ficção. Do total de 594 votos, Aracataca tem 331 (55,72%); Macondo, 157 (26,43%), Aracataca Macondo, 95 (15,99%) e nenhum dos anteriores, 11(1,85%). Aracataca é uma pequena cidade de 51 mil habitantes, situada no Caribe colombiano, distante 625 quilômetros ao norte de Bogotá, fundada em 1885. Lá nasceu Gabriel García Márquez, em 6 de março de 1927. Naquele tempo, a cidade vivia uma fase de desenvolvimento com a instalação da empresa norte-americana de comercialização de banana, a United Fruit Co., segundo uma reportagem de 2002 da BBC. Hoje, ainda vive da banana, mas busca outras fontes de renda, especialmente a partir do turismo que o nome de García Márquez possa render. A casa onde o escritor nasceu foi declarada monumento nacional em 1996 e tornou-se a Casa Museu García Márquez, mas segundo registro da BBC, tem poucos objetos do escritor e recebe apenas cerca de 500 visitas anuais.Reencontro com a cidadeAlém de aparecer em Cem Anos de Solidão, publicado em 1967, a cidade colombiana voltou à literatura de García Márquez em 2003, quando lançou a primeira parte de sua autobiografia, Viver para Contar. O escritor, que tem o apelido de Gabo, viveu em sua cidade natal até a juventude, quando iniciou suas atividades como jornalista e só retornou muitos anos depois, na companhia da mãe, para vender a casa dos avós. O reencontro com os cenários onde passou a infância e com as pessoas de quem ainda se lembrava e onde criou a "incrível e triste história" dos Buendía, foi fundamental para sua produção mais recente: "Nem minha mãe nem eu poderíamos imaginar que aquele cândido passeio de apenas dois dias iria ser tão determinante para mim que a maior e mais diligente ds vidas não me permitiria acabar de contar", disse o escritor em suas memórias. O livro começa com um noivado em Aracataca, entre o funcionário dos telégrafos Gabriel Eligio García e a jovem Luisa Santiaga Márquez, os pais do escritor.Artigo publicado hoje, na versão online do jornal Diario el Comercio de Bogotá, lembra uma definição dada por García Márquez para sua cidade imaginária: "por sorte, Macondo não é um lugar, mas um estado de ânimo que permite à qualquer pessoa ver o que quiser e como quiser". E acrescenta depoimento do prefeito Pedro Sánchez explicando sua proposta que é: "tirar do abandono e da pobreza este povo caloroso e empoeirado que nem sequer possui um hotel que abrigue os peregrinos literários. Pessoas que nunca ouviram falar da Colômbia conhecem Macondo. Então, a troca de nome favorecerá a chegada de mais turistas, originando pelo menos uns 200 empregos e permitirá investimentos em infra-estrutura hoteleira, capacitação de jovens como guias e reativação da economia em geral".

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