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A fogueira das humanidades

É natural, diante da perplexidade, tentar apontar responsáveis. Este verão derrete certezas dos brasileiros. Há que rever o que se considerava confortos básicos da vida urbana, como abastecimento de água e energia. Sem contar o esforço exigido para destruir uma companhia do porte da Petrobrás.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2015 | 02h06

Na ausência de um fio de água escorrendo da torneira, o público do espetáculo de improbidade e incompetência tenta retomar o fio da meada histórica: como chegamos aqui? Mas vivemos no presente perpétuo. Dos jovens que preferem o constante registro digital do momento aos políticos que só pensam no ciclo eleitoral, dos empresários obcecados com rápido retorno de investimento aos burocratas aprisionados por metas, quem tem tempo para o passado?

Uma anedota foi usada como mote dos historiadores Richard Neustad e Ernest May, autores de Thinking in Time, publicado em 1986 e livro referência nos Estados Unidos sobre a importância da história nas decisões políticas, econômicas e militares: cada vez que um gerente lhe procurava em apuros, o antigo dono de cadeia de supermercados Stop & Shop, no estado de Massachusetts, não perguntava "Qual é o problema?" e sim dizia "Conte a história". Mas o empresário não estava sendo exatamente original. Tinha antecessores como o filósofo romano Cícero que, pouco antes da Era Cristã, definiu a História como "o guia da vida."

Um novo livro argumenta que as grandes questões do nosso tempo não podem ser relegadas a economistas e burocratas de números. The History Manifesto foi lançado recentemente por Jo Guldi, historiadora americana da Universidade de Brown, e por David Armitage, historiador britânico de Harvard, e está disponível para download grátis na internet.

Os autores denunciam a doença do curto prazo no estudos de História. Em 1900, as dissertações sobre História cobriam um período médio de 75 anos. Em 1975, o período havia encurtado para cinco para 50 anos. O contraste foi inicialmente justificado pela rejeição das grandes narrativas, na maioria relatos do ponto de vista dos vitoriosos. Os historiadores passaram a se identificar com a teoria pós-colonial de intelectuais como Edward Said. Os anos 70 marcaram a subdivisão da história em disciplinas como história cultural, história de mulheres e de minorias.

Mas chegamos ao que Guldi e Armitage chamam de extremos da micro-história, exemplificado em trabalhos como O Grande Massacre de Gatos, de Robert Darnton, sobre o assassinato de gatos numa rua de Paris no final da década de 1730. Os autores não são contra a micro-história e sim contra a balcanização que provoca uma miopia de perspectivas. Acreditam que a "suspeita da grande narrativa" - foi assim que o filósofo francês Jean Lyotard definiu o Pós-modernismo - se tornou endêmica e acaba por estreitar nossa capacidade de usar o passado como farol para o futuro. Lembram que, graças à disponibilidade digital de dados, os historiadores nunca tiveram tantos recursos para examinar períodos mais longos. Seu exemplo mais cintilante é o best-seller O Capital no Século 21, do economista francês Thomas Piketty, transformado em rock star de sua área depois de se debruçar sobre 300 anos de história da renda em inúmeros países.

Mas o caso de Piketty é exceção porque a realidade econômica na academia desencorajou projetos que muitos europeus desdenham como a ingênua aspiração dos americanos a "pensar grande." A profissionalização do historiador é um fenômeno do século 20 e vastamente limitado ao mundo universitário. Quantos candidatos a um título em História terão independência financeira ou estímulo de instituições para longos estudos acadêmicos? Quantas editoras se comprometeriam com projetos multidisciplinares no espírito do que o grande historiador francês Fernand Braudel definiu como longue durée?

Os autores de The History Manifesto apontam para três das grandes questões que afligem o planeta: a mudança climática, a desigualdade econômica e a governança. Nenhuma delas pode prescindir de exame amplo, da combinação de quantidade inédita de informação com a distância no tempo. Em outras palavras, uma nova visão macro, mas não a usada como desculpa para projetos de poder, como a que castiga os brasileiros.

Como olhar para a invasão do Iraque - 200 mil mortos, US$ 2 trilhões, mais a recente declaração de George W. Bush: "Não me arrependo" - sem contemplar o mal do imediatismo? Um professor de humanidades na Universidade de Columbia, Mark Lilla, resumiu bem nossa relação com o tempo: "Antes, tínhamos nostalgia do futuro. Agora, temos amnésia do presente."

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