A final da nossa derrota

Palmeiras e Corinthians disputando o Paulistão sem torcida é como hot-dog sem molho

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo

09 de agosto de 2020 | 06h00

Corinthians e Palmeiras, até em queda de meteoro, mobiliza a cidade, e é pegado. Mesmo sem torcida, é um Corinthians e Palmeiras, com emoção até o final (pênalti aos 51 min do segundo tempo).

A arquibancada foi enfeitada. Muitas bandeiras não tremulavam em seus bambus sem donos. Faixas eram seguras por cadeiras vazias, de muitas torcidas. Eu era uma das poucas pessoas presentes, numa área sem ninguém. Todos de máscara. Apenas os jogadores em campo que não. Uma bola cor de rosa alegrava.

No estádio, o som artificial fica insuportável. O operador, Moacir de Lima, fez milagres. Sincronizou bem. Nos pênaltis, subiu o volume quando o Palmeiras marcou. Mas desconcentra. É repetitivo. Chegamos ao desespero. Não dá pra parar um segundo? Não tem um respiro do silêncio necessário. 

Afinal, conclui-se: o futebol empolga como sempre, clássico é clássico, final é especial, mas a torcida é o coração de um jogo, e sem ela, dá uma tristeza sem tamanho. A falta dela representa nosso fracasso. Enquanto ela não voltar, nos sentiremos derrotados, todos.

Os técnicos gritaram mais do que os alto-falantes. Especialmente o “pofessô” Luxa. No final das contas, o grito de “vamos ganhar porcô” predominou. Foi uma final emocionante. Teve muita gente que se aglomerou depois na Rua Palestra Itália. Fogos, como os de uma final qualquer, rolaram. Mas não era. Foi a final mais chocante da nossa história.

Os jogadores de futebol, aqueles semideuses que conhecem o céu e inferno, nomes que costumam ser entoados por dezenas de milhares num estádio, que podem alegrar ou desesperar uma nação, cujo desejo dos mais bem-sucedidos é um Embraer Legacy 450, modelo dos jatinhos comprados por Neymar e Messi, viraram peladeiros do condomínio.

Muita gente reclama de jogo sem torcida. Confesso que acho triste, mas sociologicamente interessante, pois humaniza os jogadores. Milionários se transformam naqueles tiozinhos do churrasco, peladeiros de praia, de rua de terra, de clube, de condomínio, que gritam, xingam, assoviam, como todos os mortais. 

No Allianz Parque, o próprio locutor do estádio opera. Tem estádio colocando DJ. No jogo do Atlético de MG, era um de casamento. Ficou pior.

Os viciados em videogame não conseguem ver sem ouvir o som artificial das arquibancadas gerenciado pela inteligência artificial dos seus consoles. Os torcedores terão que ouvir, por um bom tempo.

Consolem-se. Se um dia tudo isso vai passar, por que não viver essa experiência diferente e inesquecível, a chance única de ouvir o que rola entre jogadores, juízes, treinadores, quem mais reclama, grita, o chato da pelada.

E, como o futebol brasileiro anda bem ruim e perdeu os fundamentos que o levaram a ser chamado de arte, o que difere mesmo do futebol de amadores é o tapete em que profissionais jogam, gandulas à disposição, e o VAR para acalmar os ânimos e punir aquela entrada dura.

Já vi muitas finais para serem citadas no meu funeral. “Apesar de muitos disserem o mesmo, Marcelo esteve, sim, e tem testemunhas, na grande final de 1977 contra a Ponte Preta, e pulou na arquibancada do Morumbi para comemorar o gol de Basílio. Assim como viu o Corinthians sagrar-se campeão da Libertadores, num Pacaembu tomado, e a final da Copa, em que quase os argentinos ganharam. Apesar de idolatrar seu cinema, literatura e Piazzolla, dizem que torceu para a Alemanha...”

Mas uma final estranha como essa... Palmeiras e Corinthians disputando o Paulistão sem torcida é como hot-dog sem molho: alimenta, mas sem aquele temperinho gostoso extra, que dá sabor.

Confesso que era daqueles que se revoltam com a notícia da volta do futebol. O Brasileirão 2020 chega quando batemos a marca das cem mil mortes notificadas, num dos períodos mais nebulosos da História.

Porém, cansado de ver Borussia versus Schalke 04, do pouco competitivo Campeonato Alemão, o primeiro a voltar, começou a me empolgar ver meu time, por conta de um regulamento esdrúxulo, como a maioria dos regionais, sair do rebaixamento, despachar o favorito e ir para a final contra seu maior rival em poucas rodadas.

O que mais mobilizou os bastidores foi a prisão do advogado Thiago Marchiori, o torcedor corintiano que entra onde quer, e foi encontrado atrás do gol do Palmeiras, sem credencial, por um fotógrafo da Federação Paulista.

Estavam à caça dele, desde que o blogueiro Cartolouco, Lucas Strabko, contou sua história: a façanha de invadir o jogo que quiser, e até ganhar uma medalha na final de 2019. Todos estavam de sobreaviso. Foi em cana. Fiscais da Federação urraram de alegria tanto quanto os palmeirenses.

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