A filosofia POP em questão

Gilles Deleuze foi o primeiro a utilizar o termo filosofia pop. Ao se referir ao livro Mil Planaltos (1980), vale-se dele e quase o condena. Estaria destinado à lata de lixo? Não, responde Mehdi Belhaj Kacem (MBK, de agora em diante), jovem filósofo franco-tunisiano e ex-discípulo fervoroso de Alain Badiou. O pensador alternativo dá o título de Pop Philosophie (Perrin, 2005) às 11 entrevistas que concede a Philippe Nassif em 2003 e 2004. MBK quer reconciliar a pesquisa na filosofia e na psicanálise com a atualidade política e comportamental. Trabalha a deserção do político, a competição dos egos, a frivolidade depressiva e a pornografia, a vida punk, o videogame e a sitcomização (de sitcom, comédias em que os mesmos personagens aparecem em capítulos sucessivos) da vida amorosa. Pretende elevar a obscenidade contemporânea à altitude grega. Deve haver uma obscenidade grega e uma altitude contemporânea. A reviravolta na valoração tem de ser dada a conhecer. MBK a reconhece e a cria a partir de discussões sobre racionalidade rude e instinto vivo, anarquia e lei, lucidez desencantada e ativismo apaixonado, comunidade e sujeito, exigência e gozo. Ao encarnar a figura do jogador (de videogame), o filósofo pop se libera de problemas falsos.

Silviano Santiago, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2011 | 00h00

Não é por acidente que MBK resgata em seminários a presença física do filósofo, sua palavra viva. O retorno à ágora socrática encaixa o pop entre os adversários dos filósofos da escrita, de que é exemplo Jacques Derrida. "Há situações de verdade que não são jogos de linguagem", reitera Badiou. A animação de seminários, entre eles o famoso "la cellule", e a opção por expor as ideias em livro/entrevista não invalidam a experiência do pensamento em escrita de MBK. Confessa, no entanto, que tem mais e mais necessidade de presença. E se justifica: "Há uma verdadeira diferença entre a palavra viva, que se desdobra aqui e agora, com você à minha frente, e a minha palavra diante do computador ou do caderno. Posso ter afetos extremamente fortes diante da folha de papel ou da tela, mas, por mais que Derrida me diga o contrário, há algo a mais na palavra viva e na presença física". Simples: a palavra viva do filósofo senta o real no poder e de lá expulsa a imaginação, entronizada em 1968.

Escute-se o lema de MBK: "Por toda parte, o real tornou-se didático, despoticamente didático". À época das entrevistas, destaca dois acontecimentos: o atentado às torres gêmeas (2001) e a ascensão de Jean-Marie Le Pen (extrema-direita) ao segundo turno das eleições francesas (2002). Considere-se o significado original que dá a acontecimento: é "o real de uma representação desagregada". Entenda-se: o real aparece numa representação em que estão destruídos os princípios de coesão e de unidade. O acontecimento endossa, portanto, a atual falência da representação artística. À diferença do filme Duro de Matar, o atentado não causa efeitos simbólicos. Causa efeitos sobre o simbólico; machucam-no como faca fere a pele ou a fruta. No acontecimento nova-iorquino, o real se apresenta de modo desagregado; põe em jogo um não-tempo caótico, a ser trabalhado filosoficamente. A mídia contra-ataca: imobiliza o cidadão, saturando-o de imagens. Pânico (MBK subscreve Deleuze e Badiou) é palavra que pertence ao registro do afeto, e não ao registro do real ou da representação. MBK é radical: o estado de exceção não deve armar o gatilho da guerra civil. Não houve baixas em maio de 68.

Quem leva o pensamento a pensar trata o acontecimento com atitude marcial. Pela "marcialidade" o pop não forma discípulos, forma "guerreiros", que improvisam em presença do imprevisto. Não se improvisa por escrito, mas a cappella. "Não tenho consciência de todas as filosofias por que atravessei", afirma MBK. Explica-se: "Você lê, você esquece, compreende cada vez mais; quanto a mim, compreendo o essencial do que há para se compreender, mas não lembro". Ele inaugura o "niilismo democrático" da atualização, que contradiz a memória plena, de que falam Bergson e Deleuze. Em oposição ao ensino magistral de caráter universitário, o ensino marcial pop capacita o sujeito a se reatualizar, a ser no tempo atual. O pensador que julga poder compreender com seu estoque de saber a "falência da representação" é um desorientado a priori. Constatará: não sei reagir ao imprevisto.

MBK repete Sócrates: "Chego virgem, vazio, nu, nada sei; chego a alguma coisa na discussão". Trabalha-se a arte de se aperfeiçoar. O modo de viver e de praticar a filosofia se dá pelo desenvolvimento no discípulo do "intercepto" (ato de obstruir o fluxo de alguma coisa). A escuta é o sentido que não se desliga, disse Freud. Antes de pedir a palavra, o guerreiro fica de tocaia, à escuta das coordenadas da situação. MBK lembra o seminário "la cellule": "Eu entrava na sala sem saber o que iria dizer. Formulava questões, e orientava minha fala de acordo com as reações que sentia e a atenção que captava. Ficava atento ao que desejava dizer e, ao mesmo tempo, à possibilidade de uma improvisação total". O intercepto é a negação do "democratismo convivial e autista" (adjetivos usados há pouco na crítica ao ministério Dilma Rousseff).

Quando a própria morte não paga a serventia do ser à causa nobre, não há herói. Há o jogador. Seu corpo participa da ação virtual, apropriando e manuseando imagens. Por ser explorado como jogo, o virtual é uma técnica tão revolucionária quanto o foram a foto e o cinema. Com uma vantagem: não é preciso ter a história da arte na cabeça para apreciar um videogame. Ao sobreviver no real político do Ocidente, onde imperam a depressão e o suicídio, o "jogador" pop corre risco de vida. De outra forma: o guerreiro arrisca a própria pele até no campo lúdico da representação. Deserdado, glorifica a herança da morte do herói.

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