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A fila é um problema

No Brasil, os aristocráticos poderes estabelecidos desejam garantir sua superioridade mesmo diante do pavor generalizado

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2020 | 03h00

Toda cultura regula a vida e a morte. A maioria, creio, acompanha o senso comum: não há quem não morra, mas deve-se morrer velhinho, jamais moço. 

Apesar de sua presença incômoda, certa e quase sempre inesperada, sabemos que não se pode morrer à toa. Entretanto, sabemos que a morte é relativizada. Nas guerras, os velhos generais a ela se irmanam e os jovens nelas morrem pela pátria. A guerra, como um dever, reverte mandamentos e racionalizações. Um mandamento de Deus é revertido e o proibido torna-se obrigatório. 

Sair da vida exige um bom motivo: um dever ou uma boa desculpa. Não é por acaso que o suicídio é, no dizer de Albert Camus, o único problema filosófico verdadeiramente sério.

Morrer aos 90 é mais aceitável do que aos 20 quando “existe uma vida pela frente...”. Há uma fila para entrar no mundo, mas (exceto nos impensáveis holocaustos e nas penas capitais) não há fila para dele sair. A morte, contudo, como revela a pandemia, é mestra em furar fila.

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No Brasil, os aristocráticos poderes estabelecidos desejam garantir sua superioridade mesmo diante do pavor generalizado. Se existem pessoas com mais “qualidade do que outras”, elas não devem morrer de uma pandemia que iguala. Isso é coisa para pobre. Nós, os ricos e mandões, vamos escapar com o nosso sortimento reservado de vacinas. O vírus ataca os abnegados cujo dever é cuidar de suas vítimas, mas, nós – os nobres – devemos ter também um foro especial de vacinação.

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É evidente que o problema é duplo. Tem a ver com a erradicação da doença, mas exibe algo ainda mais patológico e mortal: a profunda gradação social que nos põe no topo ou no porão do sistema. Morre quem não possui as condições para o isolamento privilegiado da casa-grande... 

O isolamento surge para os comuns como uma escolha indesejável porque eles aprenderam muito bem que, no Brasil, obedecer é sinal de inferioridade. Como usar máscara ou ficar isolado dos entes queridos, se um dos traços mais fortes do poder é justamente o privilégio de nada seguir – da fila à honestidade; do sinal de trânsito ao exemplo? Como ter respeito pela recomendação sanitária se o elemento definitivo do poder à brasileira jaz na possibilidade de simplesmente ignorá-la por motivos de família, companheirismo ou dinheiro? No Brasil, contrariar, abusar e renegar regras é sintoma de poder.

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Eis o dilema: se nossa visão do mundo diz que alguns são melhores que outros, como não estabelecer uma gradação na cura? Se as doenças não pegam os ricos e os privilegiados, como viver a igualdade de uma vacinação que, diferentemente de tudo o mais, deve ser para todos? 

Se os superiores não entram em fila e têm o direito de furar filas, como é que nós – letrados, juristas, ministros, políticos, celebridades e privilegiados –, nós, os donos do Brasil – onde temos o direito de usar o “você sabe com quem está falando?” –, vamos entrar humilhantemente numa fila?

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Vejam a triste ironia. O problema do Brasil não é a cura; é a vacina! Quando se trata de viver um igualitarismo impessoal logo surge o “você sabe com quem está falando?” dos privilegiados e a questão fundamental de como reafirmar, resguardar ou simplesmente, como é ocaso da vacinação de massa, neutralizar a igualdade. 

Quem vai ser vacinado primeiro? – essa é a questão.

Será o presidente que recusa a vacina e nega a doença; os supremos que já botam a unha de fora; os generais; os queridinhos? Ou o povo anônimo em geral, guiado pelos critérios do bom senso que impessoaliza e relativiza a arrogância pessoal? 

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Os superiores, conforme demonstrei com Alberto Junqueira no livro Fila & Democracia (Rocco, 2017), não entram em fila. A fila os ofende. Como então assumir a espera numa fila (paradoxalmente desejada porque cura) quando se sabe que ela deveria seguir as hierarquias do normal nacional: primeiro os superiores, depois os inferiores – os criados que nela “guardam o nosso lugar”. A vacina, leitores, mostra o horror ao um igualitarismo somente válido no carnaval.

Não é fácil fazer um planejamento democrático num sistema que é aristocrático, mas não se reconhece como tal. 

A ver...

 

É HISTORIADOR E ANTROPÓLOGO SOCIAL, AUTOR DE ‘FILA E DEMOCRACIA’

 

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