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A fila do Everest

Como fomos de Edmund Hillary, o primeiro a chegar ao cume do monte, em 1953, a vendedores de água mineral e biscoitos Globo na fila, sem nos darmos conta?

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

02 de junho de 2019 | 02h00

Por certo, nenhuma imagem publicada na imprensa mundial nos últimos dias impressionou tanto quanto a foto daqueles alpinistas fazendo fila para chegar ao topo do monte Everest, colocar uma bandeirinha do seu país ou uma lembrancinha da sua mãe e pedir para o cara de trás tirar uma selfie. A fila não é pequena, é enorme. Presume-se que não seja novidade e que se forme todos os dias, resistindo ao frio, ao vento, à falta de ar, à morte e à impaciência do cara de trás. O que aconteceu para que o desafio se tornasse corriqueiro?

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O Everest continua onde sempre esteve. Seu pico deve aumentar ou diminuir com as variações no tempo, mas não muito. O desafio ainda é o mesmo, ainda se sofre para chegar ao cume da grande montanha. Tanto quanto sofreu o neozelandês Edmund Hillary, primeiro a chegar lá, em 29 de maio de 1953. Hillary tornou-se uma celebridade mundial e viveu dos direitos da sua aventura até morrer, em 2008. O guia da expedição que culminou, trocadilho intencional, com a conquista de Hillary, o nepalês Tenzing Norgay viveu menos do que Hillary (morreu em 1986), mas foi uma espécie de subcelebridade, bem recompensada, embora pouco lembrada depois da aventura. Hillary foi um autêntico herói ocidental que falava a língua dos colonizadores. Ninguém esperava que o nome de um nepalês aparecesse nos créditos junto com o nome de um neozelandês. Não neste mundo.

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A questão dos créditos sempre foi uma questão de nomes. Você imaginaria que o nome “Everest” seria uma justa homenagem a alguma divindade oriental ou monumento nacional, e não a um cientista e explorador inglês, como é. Quando apareceu reproduzido num mapa pela primeira vez, na China, o monte foi identificado como Qomolangma. No Tibete ele era, ou ainda é, Chomolungma. Também na China, seu nome era ou é Zhugmulanga Feng. 

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Como se explica a fila do Everest? Descobriram uma nova rota de subida? A população do mundo está maior do que se pensava, está sobrando gente para fazer fila, qualquer fila? Como fomos de Hillary e Norgay se arrastando na neve a vendedores de água mineral e biscoitos Globo na fila, sem nos darmos conta? 

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