A ficção de uma frase só

Numa só frase, tudo; literalmente tudo: todos os parágrafos, todos os capítulos, o livro inteiro - ou o conto inteiro, como se viu em The Sentence (A Frase), de Donald Barthelme, compactando três páginas da revista New Yorker de 7 de março de 1970, com o café da manhã de um casal periclitante nas primeiras linhas, o primeiro desafio do gênero que li e consegui acompanhar fagueiramente até o fim, pois era apenas um conto, não uma narrativa longa com uma frase estendendo-se por muitas e muitas páginas: 158, no caso de As Portas do Paraíso, do polonês Jerzy Andrzejewski - sim, o mesmo escritor de Cinzas e Diamantes -, que, na verdade, usou duas frases, a segunda com apenas quatro palavras ("E eles caminharam toda a noite"), antecedidas de outras 40 mil e uma profusão de vírgulas e travessões, isso dez anos antes de Barthelme e quatro antes das Lições de Dança para os de Idade Avançada que o velho sapateiro inventado pelo checo Bohumil Hrabal "ensinava" a seis belas moçoilas ao longo de 117 páginas sem pontuação, monólogo ininterrupto quase do mesmo tamanho do de Wendell L. Espana, o bronco tecelão das dezenas de histórias e interconectadas anedotas sobre o legendário duelo no Corral O.K. (Tombstone, 1881, Wyatt Earp, Doc Holiday, na tela Henry Fonda & Victor Mature ou Burt Lancaster & Kirk Douglas) mescladas pelo espanhol Camilo José Cela em Cristo Versus Arizona, um ano antes de ele receber o Nobel, e oferecendo a vantagem de haver sido escrito numa língua de fácil compreensão, ao contrário de Andrzejewski (que eu podia ter encarado em francês, via Gallimard), Hrabal (de quem só traduziram aqui Eu Servi o Rei da Inglaterra e Uma Solidão Ruidosa) e o líbio Ashur Etwebi, autor de Dardadin, 113 páginas sem pontuação (e em árabe!), já que a quebequence Marie-Claire Blais escreveu Augustino e o Coro da Destruição em francês, o mesmo idioma do congolês Alain Mabanckou, cujo tour de force fraseológico Vidro Quebrado (Verre Cassé, no original), que tampouco me encorajei a ler, foi recebido pela crítica francesa como um "ovni literário" de tirar o fôlego, não sei se mais ou menos sufocante que as 517 páginas de Zone, do parisiense Mathias Énard, quase desclassificado dessa competição por conta de 23 quebras de capítulos destinadas a "aliviar a vista", a dos leitores, não a do franco-croata que rumina a história durante uma viagem de trem entre Milão e Roma; de todo modo, uma façanha considerável, tanto quanto a quilométrica frase que fecha o último capítulo de The Rotters Club (Bem-vindo ao Clube, na tradução da Record), de Jonathan Coe, da qual, confesso, só ouvi falar mas sei herdeira, como as demais façanhas citadas, das 944 palavras de uma (et pour cause) célebre frase de Proust e das míticas 50 páginas que separam os dois "sim" da joyceana Molly Bloom, pedra de toque de todos os escritores que se metem a romper a barreira da contenção e consideram a frase em si um objeto artístico ("a man-made object", apud Barthelme), a tocha olímpica de maratonas verbais, com fundistas e velocistas em pistas opostas, de um lado os já citados, mais Faulkner, o Beckett de How It Is, o García Márquez dos seis imensos parágrafos de O Outono do Patriarca, o Richard Gross de Book of Lazarus - ok, há vagas para Thomas Pynchon, o Jonathan Franzen de Freedom e o Roberto Bolaño de 2666 -, e, na outra pista, os atletas da micronarrativa, incomparável refresco literário (uma frase só também, mas curtinha, e está dado o recado), performance minimalista cujo mestre maior continua sendo o guatemalteco Augusto Monterroso, ourives do menor conto de todos os tempos: sete palavras - "Quando ele acordou, o dinossauro ainda estava lá", um antídoto à sensação de claustrofobia que sempre me acomete quando bato os olhos naqueles blocos de texto sem períodos, sem parágrafos, sem respiração, um incentivo ao desânimo, um breve contra a fruição cadenciada, provocações à nossa finitude (sententia longa vita brevis), má vontade que não deve ser vista como desprezo pela prosa torrencial, pois na verdade, se deficiência há, ela é minha e dos leitores carentes de aprender a ler torrencialmente, ainda que tal habilidade não nos assegure flanar com prazer as aventuras lipogramáticas (de lipograma: composição literária feita com o propósito de nela não se empregarem determinadas letras do alfabeto), exercícios de engenhosidade verbal inventados na Grécia pré-cristã pelo poeta Lasus e turbinados por estróinas literários de variadas épocas e procedências, como o quinhentista espanhol Lope de Vega (que, entre uma peça e outra, produziu cinco romances sem usar uma das cinco vogais), o poeta alemão Gottlob Burman, autor, no século 18, de mais de cem poemas sem a letra r, uma exceção, diga-se, já que a regra é a abolição das vogais, haja vista o que fizeram com a letra a (inexistente na Pièce Sans A, de Ronden, do início do século 19), a letra e (banida do épico de 276 páginas, Gadsby, de Ernest Vincent Wright, de 1939, e das 300 páginas de La Disparition, de Georges Perec) e a letra o (proibida num estranho país criado pelo humor de James Thurber), se bem que Perec depois se arrependeu e escreveu uma novela (Les Revenentes) em que justamente a letra e era a única vogal utilizada; e antes que você me pergunte que tratamento deram à letra i, informo: ela é a única a figurar nas centenas de páginas de um livro do sevilhano Juan Luís Castillejos, que por sinal não tinha título, nem a, nem e, nem o, nem u.

SERGIO AUGUSTO, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2011 | 00h00

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