A fera já havia seduzido Cocteau e Garbo

A pergunta tola, a que não quer calar. Alan Menken gosta de A Bela e a Fera? "Se eu gosto? Amo! Não é só a Bela e a Fera dançando. Os personagens secundários, aqueles que na Disney sempre carregam o humor, são encantadores. Podem existir animações melhores, mas essa é maravilhosa."

, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2010 | 00h00

Foi o que a própria Academia de Hollywood avalizou em 1991. A Bela e a Fera não apenas recebeu os mesmíssimos Oscars que Menken e seu parceiro, Howard Ashman, já haviam ganhado, dois anos antes, por A Pequena Sereia - melhor trilha e melhor canção, Belle. A Bela e a Fera foi também o primeiro desenho indicado para o Oscar na categoria principal, de melhor filme, feito que só foi repetido por Up - Altas Aventuras, de Peter Docter.

Você não precisa ser criança para desfrutar o prazer estético que A Bela e a Fera proporciona. As crianças vão gostar da história e dos personagens secundários, tão divertidos. Mas há toda uma sutileza na construção de A Bela e a Fera que talvez exija um público mais adulto.

Foi de olho neste público adulto que o poeta e cineasta Jean Cocteau fez, nos anos 1940, a sua versão do conto de Jeanne Marie Le Prince Beaumont. Os críticos gostam de dizer que a atividade cinematográfica de Cocteau foi bem mais rica do que sua filmografia como diretor. Ele próprio criava o conceito dos filmes, mas muitas vezes recorreu a codiretores que se encarregavam dos aspectos técnicos. O de A Bela e a Fera foi René Clément, impecável.

Conta a lenda que Greta Garbo, depois de assistir ao filme, teria exclamado - "Give me back my beast!" Ela queria a Fera de volta. Jean Marais, maquiado como a Fera, é tão sedutor que, realmente, há algo decepcionante quando ele se transforma em príncipe - era o ambíguo efeito pretendido por Cocteau.

O conto é clássico como expressão do direito à diferença. Permite leituras psicanalíticas interessantes, que remetem a temas como desejo reprimido, sexo e o embate entre o instinto e a cultura repressora. O DVD agora à venda, como item especial para o Dia da Criança, sai em múltiplas versões. A edição limitada inclui o DVD duplo e a camiseta, mas você pode optar pelo DVD duplo mais CD, pelo DVD duplo (simplesmente), ou pela edição Diamante, que oferece o DVD duplo em Blu-Ray.

A Bela da Disney não é mais a típica mocinha ingênua e dependente. Ela toma suas decisões, rejeita o belo e fútil Gaston (personagem novo acrescentado à trama) e obriga a própria Fera a se virar para merecer seu amor. Não foi por acaso que, na época (1991), foi rotulada como "heroína pós-feminista". Entre outras coisas, é ela quem se oferece para ser refém da Fera, em substituição a seu pai, preso por invadir o jardim do palácio do príncipe vítima de um encantamento.

O castelo é assustador, um modelo de expressionismo alemão incorporado à tradição hollywoodiana (renovada no computador). Nele, a criadagem e parte do mobiliário também foram encantados. O cachorro virou tamborete, o esnobe francês se transformou em candelabro, a governanta inglesa é agora um bule de chá e seu filho, uma xícara lascada. A canção Belle ganhou o Oscar da categoria, mas o melhor número é Be Our Guestas, que o aparelho de jantar, as xícaras e os talheres apresentam a Bela e que termina num fecho espetacular, quando todos se atiram na terrina de sopa e formam um balé aquático digno de Busby Berkeley (e Esther Williams).

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