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A fera e a fera

O romance é visto como inspiração para Kennedy criar a Aliança para o Progresso

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2018 | 02h00

“Uma mudança misteriosa parece acometer americanos quando vão a uma terra estrangeira. Eles se isolam socialmente. Eles vivem de maneira pretensiosa. Eles são ruidosos e exibicionistas.” (comentário de um personagem de O Americano Feio, de William Lederer e Eugene Burdick.)

Há 60 anos, o romance O Americano Feio se tornou um best-seller do seu tempo e não especialmente pelas qualidades literárias. A trama política sobre o comportamento crasso do corpo diplomático americano em um imaginário Sarkhan, um país do Sudeste da Ásia que evocava o Vietnã, foi escrita por autores com experiência militar e ceticismo pelo começo do envolvimento dos Estados Unidos na região que custaria, nas próximas décadas, a vida de 2 milhões de vietnamitas e 58 mil americanos. O título era uma referência ao clássico de Graham Greene, O Americano Tranquilo (1955), um romance em que um idealista funcionário da inteligência americana causa morte e tragédia em Saigon.

O então senador e futuro presidente John Kennedy ficou tão impressionado ao ler o livro de Lederer e Burdick que disse ter comprado uma cópia para cada um de seus colegas no Senado. O romance é visto como inspiração para Kennedy criar a Aliança para o Progresso, na América Latina, e o programa de voluntários Peace Corps.

O termo “americano feio” passou a ser usado fora do contexto do Vietnã para descrever o comportamento espalhafatoso ou ignorante de americanos em outros países. O aniversário da publicação está sendo lembrado com pesar, dez anos depois de a eleição de Barack Obama ter provocado expectativas de volta à diplomacia e ao soft power. As expectativas causaram desencanto a inúmeros membros da comunidade que o principal assessor de Obama na área ridicularizou como a bolha viscosa da política externa.

Vivo cercada de americanos belíssimos. São curiosos sobre meu passado, a cultura do Brasil, revistam minha coleção de CDs, minha estante de livros e me pedem para avisar cada vez que membros da nossa nobreza musical, como João Bosco e Paulinho da Viola, pisam em Nova York. Dois deles estavam na minha sala se recuperando de uma feijoada que elogiaram com uma generosidade excessiva para o talento sofrível da cozinheira quando me dei conta de uma realidade. Meus amigos estão se desculpando de novo pela cara de seu país. Isto não acontecia desde que a invasão do Iraque nos trouxe revelações como o espetáculo sádico da prisão de Abu Ghraib, há quinze anos, mas, mesmo naquele momento, as notícias eram vistas mais como aberração. Meus convidados ouviram nosso relato sobre a feiura de Brasília e do Rio de Janeiro fazendo contraponto com a renovada deformidade de seu país aos olhos do mundo. É como se estivéssemos, dois grupos de feras, em concorrência para contar a pior história sobre corrupção no poder.

A feiura do americano hoje é sobretudo a feiura de uma minoria enfurecida pela ameaça de extinção demográfica. Mas a feiura que preocupa o mundo não se traduz apenas numa específica aventura militar e sim na ofensiva contra a ciência, especialmente a ciência climática, a exaltação de ditaduras, o desprezo pela imprensa livre. O esvaziamento extraordinário nas fileiras do Departamento de Estado que perdeu, só em 2017, 60% de seus mais experientes diplomatas de carreira, é um sinal de abdicação ao protagonismo internacional que deve causar deleite ao imperador Xi Jinping. A diferença que importa para nós, as feras da periferia, é que Abu Ghraib gerou corte marcial e condenações para os militares envolvidos. Na corte de Pequim, a morte do prêmio Nobel da Paz Lu Xiaobo, sob custódia militar, em 2017, é apenas parte dos planos. 

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