A felicidade enganosa de Loznitsa

Autor russo expõe o horror do mundo e transfere para o público o julgamento moral do que exibe

O Estado de S.Paulo

06 de março de 2012 | 03h08

Há um revival do cinema russo - pós-soviético - que os grandes festivais ainda não avalizaram. O júri de Cannes, há dois anos, ignorou o poderoso Minha Felicidade, de Sergei Loznitsa, que estreou ontem. O de Berlim, no ano passado, também minimizou o aporte de Sábado Inocente, de Alexander Mindadze. É verdade que a reconstituição do acidente nuclear de Chernobyl teve a má sorte de concorrer com A Separação, e o filme do iraniano Asghar Farhadi virou a sensação de 2011, até no Oscar. O importante é que ambos os filmes dão um testemunho contundente da Rússia pós-comunista.

Pobres russos - se a vida deles, sob o comunismo, já era dura, no país filmado por Loznitsa a vida humana parece valer ainda menos do que no gulag e o gangsterismo corre solto. Minha Felicidade é sobre caminhoneiro que toma uma estrada errada e se perde no interior da Ucrânia. Nada mais metafórico dos descaminhos de uma sociedade. Ele encontra uma jovem prostituta, a quem tenta proteger dos exploradores. Ela lhe atira na cara que sabe se defender sozinha. Lembram-se de Motorista de Táxi, de Martin Scorsese? Loznitsa fez o seu Motorista de Caminhão.

Minha Felicidade? O título é enganoso, que fique logo claro. Não há felicidade possível neste mundo em que os homens são lobos dos outros homens. Loznitsa nasceu na Bielo-Rússia, mas foi criado na Ucrânia. Para o cinéfilo, é um solo sagrado do cinema, com seus girassóis que forneceram a Alexander Dovjenko o cenário para o poema revolucionário mais belo do cinema - Terra, de 1930. Num encontro com o repórter em Cannes, Loznitsa reconheceu que, na época de Terra, o comunismo, recém-triunfante, encerrava uma proposta humanitária na qual era possível acreditar. Havia um projeto político e social que artistas como Dovjenko e Sergei Eisenstein transformaram em estético. O sonho acabou no stalinismo e as coisas deterioraram muito após a derrocada do comunismo.

Loznitsa queria ser cientista, mas se formou em cinema. "Talvez seja um cientista do cinema. Se o assunto me interessa, tento descobrir como torná-lo interessante para o público. E nunca faço julgamentos, não é minha função. Forneço elementos para que o espectador tire suas conclusões." Como bom documentarista, que foi, Loznitsa não inventa. Olha, observa, seleciona. Desse olhar - arguto - saiu o filme sobre um mundo que os russos não querem ver e os estrangeiros desconhecem.

A barbárie é dominante. O caminhoneiro, a prostituta e o veterano de guerra, personagens do drama, carregam o horror dentro deles, lutam pela sobrevivência. A própria paisagem é bela, mas isso é só uma fachada. A cena chave é o plano-sequência, quando o caminhoneiro chega à pequena cidade e atravessa a feira. "Aquilo exigiu muito planejamento", diz o diretor. "Você cria um espaço e mostra só o que o público deve ver. Como criador de um mundo, brinca de Deus. Ele, o Criador, concedeu ao homem o livre-arbítrio. Não quero me comparar, mas quando digo que não julgo, estou pedindo ao espectador que também use seu livre-arbítrio."

Crítica: Luiz Carlos Merten

JJJJ ÓTIMO

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