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A feiura da pessoa interessante

No extenso território que vai da beleza à feiura, há de tudo e um pouco mais

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

15 de janeiro de 2019 | 02h00

E ela é bonita?

Perguntei por perguntar, sou mesmo perguntador, mas ele reagiu como se eu tivesse lhe aplicado um choque. 

Até àquela altura da conversa, só ele falava, enfático, preenchendo com gesticulação esgalhada um vasto espaço em torno, por pouco, em sua exuberância, não me acertando uns involuntários tabefes. 

O assunto obsessivo era a moça, as inigualáveis qualidades da moça, e para enumerá-las meu amigo se esparramava, equilibrando-se à beira do ridículo. Às vezes empacava, sem palavras para descrever o indescritível, e a empolgação se metamorfoseava em algo que lembrava o ar beatífico, meio abobalhado, de quem, entre os banhistas, despistadamente faz xixi no mar.

– Bonita? – insisti.

Como num desses programas de TV em que a resposta vai levar à fortuna ou ao infortúnio, sem meio-termo, ele franziu os lábios numa rosquinha pregueada, apanhou o queixo entre dois dedos, revirou os olhos para o alto, ruminativo – e por fim desembuchou, numa hesitação tamanha que dava para ver uns hifens pingando entre as sílabas:

– Ela... é... interessante...

Bem que eu desconfiava: a moça não era exatamente uma beldade. Simpática, prendada, virtuosa, trabalhadora, o diabo – mas bonita, bonita mesmo, não era. Se fosse, não haveria, da parte de meu interlocutor, lábios franzidos, dedos beliscando o queixo, nem olhos perscrutando os céus: bonita é bonita, ponto. E interessante – as muito interessantes que me perdoem – está mais para feia. Se a gente recorre a esse adjetivo, é para camuflar ausência ou rarefação de formosura. 

(Antes que feios, bonitos e interessantes de qualquer sexo me acusem de machismo: é óbvio que a constatação vale também para a banda que, conforme receita da ministra Damares, deve se vestir de azul; com a diferença, porém, de que marmanjo não está socialmente obrigado à formosura. De qualquer forma, a história que ouvi poderia ter sido contada, em igual ênfase, por moça embevecida por moço desprovido de atrativos físicos aparentes.)

Não é tão simples assim, eu sei. No extenso território que vai da beleza à feiura, há de tudo e um pouco mais, e os conceitos são discutíveis. Quem ama o feio... Meu avô materno achava que a balança pendia decididamente para um lado, e me lembro, menino, da observação que fez num dia em que, na beira da calçada, esperávamos o sinal abrir para os pedestres. “Meu filho, como a humanidade é feia!”, murmurou ele, olhos na manada que, no lado oposto, também engatilhava o bote. 

Ressentimento? Não, o vovô Santos era um belo homem. Arrogância, também não, pois não lhe faltava compaixão pelo ser humano, aí incluídos os bonitos. Sua observação, gravada em mim qual indelével tatuagem, tinha o corte frio da experiência de quem levava décadas na observação de tudo o que vai da beleza embasbacante à feiura mais teratológica. Ele sabia que, no fundo, bonitos podem ser horrendos, e feiosos, fascinantes. Deve ter sido por ele que a lição chegou à minha mãe: quando via o filho adolescente saindo para a festa, dona Wanda recomendava não dançar apenas com “as bonitinhas”, visto de que outras, “menos aquinhoadas pela natureza”, eram portadoras de encantos insuspeitados, não necessariamente, acrescento eu, sob os recatados vestidos da época.

Talvez num centro de cidade, em países como o nosso, vivendo à margem dos spas, academias e salões de beleza, à margem sobretudo das proteínas consumidas desde o berço, a humanidade penda mesmo para a fealdade. Mas sempre se podem comparar coisas comparáveis. No centro como nos redutos ricos, pessoas há que são flagrantemente bonitas, e outras, insofismavelmente feias. Há também – e aqui a coisa se torna um tanto mais sutil — gente que é bonita-aos-poucos e gente que é feia-aos-poucos. 

Não é caso, por favor, de sair correndo rumo ao próximo espelho. Você sabe do que estou falando. Daquelas pessoas que, no primeiro contato, nos parecem feias, ou bonitas, e que, com o correr do tempo, às vezes pouquíssimo tempo, vão mudando de posição em nosso espectro estético. Os olhos não são belos, o nariz é um nariz qualquer e as orelhas, de abano, ou com os lóbulos por demais grudados à cabeça – mas, de repente, a reunião desses “aparelhinhos”, como dizia minha mãe, vai compondo um arranjo potável, daqui a pouco apetecível, quem sabe mesmo, no final da noite, irresistível. 

Também o contrário pode se passar: a progressiva sem-graceza de um conjunto formado por peças que, individualmente, são irretocáveis – e eis que a pessoa que nos parecia linda vai assumindo um feiume tão inesperado quanto inapelável, até tornar-se, no máximo, interessante. 

Mais do que com os “aparelhinhos”, num caso como no outro o ajuste de foco tem a ver com encantos imateriais, imponderáveis – com a presença, quase sempre, do imponderável atributo, invisível para os olhos, a que se dá o nome de borogodó. Razão pela qual devo insistir: inútil você sair correndo para conferir no espelho.

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