A favor dos humilhados e ofendidos

Análise de Les Nègres pôs em primeiro plano a técnica do dramaturgo para revelar as armadilhas preparadas pelas classes dos poderosos

Cleber Ribeiro Fernandes, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2010 | 00h00

"Les Nègres" torna possível identificar na obra dramática de Jean Genet varias constantes, mediante as quais nos sentimos à vontade para formular algumas hipóteses sôbre os seus fundamentos gerais. Desde "Les Bonnes", Genet persegue uma linguagem capaz de desdobrar seus personagens, com a eficácia de uma progressão geométrica, de modo que venham a representar a metáfora de si mesmo (1). Por outro lado, mesmo quando parece empenhado noutros objetivos mais imediatos, o teatro de Genet continua denunciando a opressão que gera os "humilhados e ofendidos".

O processo vem sendo depurado de um drama para outro, embora esta evolução nem sempre possa ser acompanhada em toda sua extensão. Cada um deles tem representado uma atitude formal diferente da anterior, como se Genet estivesse disposto a atacar sua experiência única por todos os flancos, como se desejasse testá-las sob todos os prismas.

Em "Les Bonnes", duas criadas vingam-se dos patrões, que as martirizam estimulando um comportamento servil. Impossibilitadas de enfrentá-los, elas os encarnam para liquidá-los. Dois únicos personagens sintetizam todo um sistema de opressão, em seu aspecto mais secreto. "Le Balcon" nos mostra os desejos frustrados pelos poderes constituídos, que até então só ousavam se expressar entre as quatro paredes de um bordel, conseguindo se impor à comunidade que bloqueara este ultimo e assumindo, em aparências e de fato, as funções de mantenedores de Lei. Em "Les Nègres", é a raça negra que, tomando a si as prerrogativas da raça branca, se julga a si própria para, finalmente, saborear a inversão da posição inicial: são os brancos, ausentes do palco, que acabam por merecer a condenação por eles mesmos preparada.

Os dramas de Jean Genet põem assim a descoberto as armadilhas disfarçadas no caminho dos humildes pelas classes que detêm o poder, cuja ultima finalidade seria a de convencer os primeiros, por métodos sub-reptícios, que as diferenças pretendidas fazem parte da ordem universal e se justificam por si. A denuncia, porém, não lhe basta e os oprimidos, ao se aceitarem como objeto, absorvem ao mesmo tempo a capacidade de se exprimir como sujeito, fazendo explodir o mecanismo contra seus opressores.

Os personagens de "Les Nègres" se arregimentam em dois grupos distintos que, à primeira vista, parecem coexistir pacificamente. De um lado, uma meia dúzia de negros, ás voltas com suas características essencialmente étnicas e, ainda, com o exotismo, único meio possível de sobrevivência, que lhes teria sido imposto pelos brancos, com o intuito de mantê-los a distancia. O outro grupo é formado pela côrte branca que deverá ser representada também por atores negros, mascarados. O drama, tal como quer Jean Genet, deverá ser representado para uma plateia de brancos. Já que foi escrito por um branco, trata-se de uma conversa entre brancos sôbre negros - pressuposto indispensável para que o drama funcione. Se, por qualquer motivo, a peça vier a ser representada para uma plateia negra, deverá ser convidado pelo menos um branco, a quem a representação será dedicada. Se nenhum branco aceitar a homenagem, deverá ser usado um manequim. Explica-se a exigência: o drama de "Les Nègres" é em verdade, a projeção de mentalidade branca, e é esta que acabará por passar em julgado. Desde que falte o acusado, o processo fica prejudicado.

Os negros fazem a mais absoluta questão de serem apresentados como os seres inferiores da escala social estipulada desde tempos imemoriais.

Vivemos - no mundo ocidental, pelo menos - numa "sociedade branca", cujos valores morais foram equacionados, uns em oposição a outros, obedecendo a mais rigorosa hierarquia: bom-mau; certo-errado; superior-inferior. No domínio cromático, a formula perdura: branco-preto. O branco equivale, assim, ao bom, ao certo, ao superior. O preto se refere ao mau, ao errado, ao inferior (2). Fieis a este principio, os personagens de Genet assumem ironicamente a imagem que deles fez o branco: criaturas alegóricas, para as quais o crime e a violência constituem o cotidiano. Em cada representação, eles deverão ser julgados por um crime de morte, a morte de uma branca, seduzida pelo fascínio equivoco do negro, por seu odor penetrante, por sua pujança sexual - a aventura feita do homem.

Genet vai além na configuração do drama negro, que não reside apenas na condição de pária entre brancos. As relações entre os próprios negros são afetadas pela discriminação. Fosse esta, de fato razoável e os problemas dela oriundos seriam facilmente solúveis, o chamado "apartheid" manteria afastados, sem qualquer nostalgia, serem incomunicáveis entre si. Mas o que há, em verdade, é que brancos e negros se atraem e se estimam na mesma medida em que a simpatia é possível, quer entre brancos, quer entre negros. Quando um branco se sente atraído por uma negra, é mais fácil vencer a distancia que os separa: entre os sexos, a hierarquia existente entre homem e mulher corresponde à que vigora entre brancos e pretos. Cabe ao superior debruçar-se sôbre o inferior, a formula psicológica do homem branco que pretende conquistar uma mulher branca não precisa ser violentada, mas apenas adaptada, quando a mulher é negra. A única diferença no caso está em que esta sabe que jamais poderá ser beneficiada pelo maniqueísmo que compensa a condição escrava da mulher com o titulo honorífico de dona e senhora. A negra que se entrega a um branco sabe de antemão que o seu império se restringe à fantasia sexual do parceiro. É por isso que, como diz um dos personagens de "Les Nègres", todo bordel tem a sua negra.

Quando, ao contrario, é um homem negro que deseja uma mulher branca, ou vice-versa, todo o esquema que norteia as relações consideradas legitimas entre macho e fêmea precisa ser destruído e, sem o terem desejado, os personagens do drama se encontram de imediato às margens da lei. Entre brancos, quando o desejo brota primeiro na mulher, esta, para realizar os seus anseios nos moldes usuais, terá que projetá-los no parceiro, para que este a conquiste. Como operar esta projeção num ser que, estigmatizado como inferior, é em consequência infenso a ela, sem recorrer a atitudes extremas? De que modo um negro pode se convencer de que deve assumir, apenas por momentos, uma posição que lhe foi negada desde sempre? Tais dificuldades anulam, os casos em que a atração é menos forte, e assim só as paixões irrefreáveis têm força para ultrapassar os limites convencionais. Quando um negro e uma branca chegam a realizar o impulso que os aproxima, nenhum dos dois tem qualquer possibilidade de retirar do evento uma tranquila satisfação. Toda ela é neutralizada pela consciência, exacerbada ao quadrado, da inferioridade básica de cada um - como mulher e como negro - inferioridade que, embora imposta por outrem, atua poderosamente como elemento perturbador do complexo psicológico. Ei-los em pleno escândalo, na esfera da intervenção policial.

Por outro lado, toda negra que passa por uma experiência intima com um branco, volta marcada para o convívio dos seus. O parceiro negro racionaliza a sua cota de inferioridade e se compara com o seu antecessor branco. Por acreditar, ele também, na hierarquia branca, passa a duvidar da eficiência de seus próprios atrativos. Como admitir que um negro, que teve a glória suprema de possuir uma branca, ou uma negra, que mereceu a intimidade de um branco, possam se contentar de novo com o amante negro? Por isso, na representação de Genet, os personagens, enquanto negros, evitam considerar seus sentimentos naturais - eles não seriam reconhecidos nem pela plateia, nem pelos seus companheiros de côr. Além de negros, maleados aprioristicamente pela sociedade branca, quase todos eles possuem o seu estigma particular. No assassinato diário de uma branca, é esta marca que eles tentam, em vão, neutralizar. De qualquer modo, Village, ao acariciar os cabelos de Vertu, não mais poderá considerá-los louros.

A côrte branca é caracterizada com pinceladas mais grossas. Afinal, ela está no palco por procuração da plateia (branca), e a sua função é materializar em uníssono as exclamações de uma multidão que se reconhece, não nos seus procuradores, mas na mentalidade imposta às suas vitimas: ela é apenas o elemento catalisador do drama. Vez por outra, a rainha, o juiz, o missionário ou ainda o governador-geral se desligam do espetáculo a que assistem e indagam sôbre as cotações do mercado, tal como deverá estar ocorrendo na plateia.

O julgamento dos negros, para o qual a plateia branca foi convidada, não pode ser levado a termo: a côrte, condenando-se a si própria, não se acha à vontade para impor qualquer pena aos réus. O objetivo de Jean Genet é atingido em cheio. Na pior das hipóteses, a plateia (como a côrte) voltará aos infernos suspeitando de que algo mais existe sob aquela "arquitetura vazia", construída de palavras. Terá aprendido a realidade absurda que os negros, desde muito, foram obrigados a admitir: eles são os que (os brancos) quiseram que eles fôssem, no palco eles se apresentam como "culpados que, na prisão, representassem o papel de culpados".

No Brasil, onde o preconceito racial teoricamente não existe, a denuncia contida em "Les Nègres" há-de parecer desnecessariamente contundente. Quando Genet sublinha que a peça foi escrita por um branco, acrescentamos por conta própria: por um branco que se sabe filho de um país ainda colonizador. Nós, ao contrário, embora nos consideremos, não com certo orgulho, parte integrante da chamada ‘sociedade branca", já não temos pejo em nos considerarmos mais próximos do continente africano do que de nossos antepassados europeus. Em todo caso, sem a intensidade com que sentimos ter Jean Genet escrito seu drama, recebemos a denuncia como ainda nos dizendo respeito. Apesar do justo rigor da Lei Afonso Arinos, sabemos todos que, a não ser em casos excepcionais, ser negro no Brasil ainda é um handicap.

Só nos resta esperar que o problema, entre nós, evolua não necessariamente para uma absorção da raça negra pela pigmentação majoritária. Afinal, desejar que tal aconteça ainda é afirmar o preconceito. Desejamos sempre o que nos parece melhor, e se desejamos que o negro seja absorvido pelo branco, é porque continuamos achando que ser branco é ainda melhor do que não sê-lo. O ideal é que se chegue a encarar com mais autentica indiferença qualquer discriminação racial. Quando isto acontecer, aí sim, "Les Nègres" será, para nós, apenas um poema de estranha beleza, mas sem sentido.

(1) "...Insatisfeito com a morna tristeza de um teatro que reflete com demasiada exatidão o mundo visível, as ações dos homens e não os deuses, procurei alcançar um relaxamento que, permitindo um tom declamatório, mostrasse o teatro sôbre o teatro. Eu esperava abolir assim personagens - que geralmente existem apenas graças à convenção psicológica - que seriam substituídos por símbolos tão afastados quanto possível do que deveriam representar em principio, mas ainda assim significantes, de modo a unir por este único laço o autor ao espectador. Enfim, conseguir que estes personagens não fossem em cena mais do que a metáfora do que eles deveriam representar". - Prefacio de Jean Genet para "Les Bonnes": A Secaux, Chez Jean Jacques Pauvert, 1954.

(2) "O preto aprenderá a dizer "branco como neve" para significar a Inocencia, a falar da negrura de um olhar, de uma alma, de um crime. Desde que abre a bôca ele se acusa... ... já imaginou o estranho sabor que teriam para nós locuções como "a negrura da inocência" ou "as trevas da virtude"? - J. P. Sartre em "Orfeu Negro", "Reflexões sôbre o Racismo" (Dif. Europeia do Livro, S. Paulo, 1960).

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