A fascinante história de uma cabeça

Em Os Ossos de Descartes, Russel Shorto une perfil, mistério e filosofia para falar do destino do crânio do pensador

ELIAS THOMÉ SALIBA, ESPECIAL PARA O ESTADO, ELIAS THOMÉ SALIBA É PROFESSOR DA USP, AUTOR, ENTRE OUTROS, , DE AS UTOPIAS ROMÂNTICAS, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2013 | 02h14

Se você ainda associa "cartesiano" a algo ou a alguém sistemático, regrado e racionalista, esqueça. E se nunca leu nada de tão detalhado sobre a vida de René Descartes, porque acreditava que fosse uma daquelas biografias sonolentas e repetitivas, também pode esquecer. As últimas sondagens biográficas têm mostrado que nada está mais longe do incrível personagem que foi Descartes. E nada a estranhar num filósofo que viveu intensamente a conturbada e dramática primeira metade do século 17, cuja expressão estética mais saliente foi o caótico, multifacético e indisciplinado Barroco. Os Ossos de Descartes, de Russel Shorto (tradução de Daniel Estill, editora Objetiva, 271 págs., R$ 40), é a trepidante narrativa da inusitada história do esqueleto do filósofo e uma competente síntese das mais recentes pesquisas sobre o legado cartesiano.

Misturando biografia, mistério e filosofia, Shorto mostra que todas as significações atribuídas aos despojos de um filósofos refletem, de fato, quem nós fomos e somos, incluindo muitas confusões, disparates e confrontos que marcaram a longa trilha de surgimento da modernidade. Mas nada em Descartes é simples e fácil. Sua morte em Estocolmo, no ano de 1650, ainda continua cercada de mistérios. A narrativa tradicional, referendada por biografias recentes, conta que - convidado pela caprichosa Rainha Cristina, da Suécia, para ensinar-lhe filosofia - Descartes faleceu em virtude de uma pneumonia, tratada pela medicina da época pelo (também letal) método da sangria. Conta-se ainda que, quando o filósofo chegou, Cristina, com seu caráter de libélula dispersiva, já estava obcecada pela dança, obrigando o criador do racionalismo moderno a escrever, constrangido, um libreto para o balé real. É provável que a pneumonia tenha sido uma doença oportunista advinda do profundo desgosto do filósofo com os caprichos da rainha.

Já a narrativa sobre o destino posterior do corpo e dos despojos pessoais do filósofo surpreende - e provavelmente forneceria um ótimo roteiro para um bom filme noir. Seu corpo foi exumado 16 anos depois e estava sem a cabeça - retirada secretamente por um militar sueco. Foi repatriado, sem a cabeça, e novamente enterrado na França apenas em 1819 - bem depois da Revolução. Neste intervalo de tempo, entre 1666 e 1819, Descartes teve seus ossos desenterrados por mais de três vezes e inúmeros personagens se apoderando de seus pedaços como relíquias, vendidas em leilões ou expostos nos famosos Gabinetes de Curiosidades - um modismo típico da mania colecionista do Iluminismo. Em 1821, seu cérebro apareceu num leilão na Suécia, sendo arrematado pelo químico Berzellius, que, um ano depois, doou a relíquia ao governo francês. Depois disto, o crânio de Descartes passaria por analises meticulosas, de gente como o frenologista Franz Gall, em 1822; de Pierre Paul-Broca, em 1857 (sim, ele mesmo, que virou o nome do giro frontal inferior do cérebro, a "região de Broca"); ou de Paul Richer, em 1910, uma mistura de médico legista, pintor, escultor e historiador da arte, que estabeleceu, afinal, a discutível autenticidade da relíquia cartesiana. Em lugar de restituir a cabeça ao corpo - enterrado em Saint-Germain-des-Prés -, o governo francês resolveu expor publicamente o crânio do filósofo no Museu do Homem, colocando-o numa daquelas ignominiosas e etnocêntricas séries cronológicas, que começa com o Cro-Magnon, passa pela peça cerebral de Descartes - e termina com uma videocâmara que projeta a cabeça do visitante numa tela, com a inscrição: "Você, Homo Sapiens, idade: 0-120"! E é lá onde ela se encontra até hoje.

Como sabemos, desde 1663, a Inquisição colocou todos os livros de Descartes no Index. Os motivos reais desta proibição permaneceram em segredo até 1998, quando o então Cardeal (depois Papa) Joseph Ratzinger ordenou a abertura dos arquivos até o ano de 1903. Os registros mostraram que, ignorando o perfil ambíguo da estrutura mental do universo barroco, a Igreja alegava que a filosofia de Descartes questionava a doutrina da eucaristia e fomentava o materialismo. Apesar de passar um tanto ao largo do universo barroco, Shorto nos revela que mais do que um equívoco preconceituoso, a Igreja ignorou a notável presciência do filósofo ao antecipar que a religião, em paralelo com a arte ou a ciência é, ainda hoje, uma forma de negociar com a infinita complexidade do mundo.

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