A farsa que a direção constrói por meio dos atores

Foi em 1962 que Dias Gomes escreveu sua peça Odorico, o Bem-Amado ou Os Mistérios do Amor e da Morte, contando a história de um político corrupto, hipócrita e mulherengo, mas cheio de carisma e com um discurso que seduzia as pessoas, especialmente as mulheres, pela confiança e eloquência. Em 1964, ocorreu o golpe militar e Dias Gomes, em 1973, retomou seu personagem, colocando Odorico Paraguaçu no centro de uma novela - O Bem Amado - que fez história na Globo.

Crítica: Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

23 Julho 2010 | 00h00

Paulo Gracindo criou o personagem de um jeito que virou não apenas a cara de Odorico, mas também a representação do político - ou de um certo político - no imaginário do público brasileiro. O sucesso foi tão grande que Odorico voltou numa série, na própria Globo, entre 1980 e 1984. O filme de Guel Arraes termina justamente no mesmo ano do final da série, quando o Brasil, cansado da ditadura, foi para as ruas clamando por "diretas já".

Na entrevista ao lado, Guel Arraes admite que a inovação de linguagem não é o forte de seu novo longa. O que ele buscou em O Bem Amado foi a eficiência da farsa - mais até do que da sátira - política. Ele tem consciência de que o Brasil e o mundo mudaram. O autoritarismo, a violência física e a violação das liberdades individuais ficaram no passado - e é interessante assistir a Vincere, de Marco Bellocchio, na página ao lado, para ver como agem os regimes totalitários. Os problemas agora são outros. Abuso de poder, corrupção, tudo dentro de uma aparência de legalidade.

O filme, mais do que qualquer outro de Guel Arraes, busca sua linguagem de farsa nos próprios atores. Na França, nos anos 1960, o crítico Michel Mourlet dizia que, no cinema, "tout est dans la mise-en-scène". O ato de direção é tudo e ele acrescentava que o cinema se constrói, dilata e elabora na epiderme dos atores. Guel impõe uma marcação a Marco Nanini, que encara o desafio de recriar Odorico. Posto que todo político é um ator, representando para seu público - um fingidor, na velha concepção de Fernando Pessoa, Nanini atua no limite, como um ator consumado. Inversamente, José Wilker, que se opõe a ele, como anjo vingador, parece uma máscara de contenção. A graça do filme vem desse jogo e da transformação das Cajazeiras - personagens tão emblemáticas quanto Odorico Paraguaçu - de carolas em peruas. Andrea Beltrão, Zezé Polessa e Drica Moraes deitam e rolam. Como na série, a inauguração do cemitério fornece o mote principal da trama. Quem viu a novela e a série vai comparar, e talvez gostar menos. Guel Arraes diz que não fez seu filme com nostalgia do Odorico antigo. Interessa-lhe mais o ridículo dos Odoricos atuais, mesmo sabendo, como diz na entrevista, que eles jamais admitirão que o retrato do filme é real.

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