A família na primeira noite de Gramado

Mostra abre com filmes sobre o tema, Bróder e Enquanto a Noite Não Chega

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

09 de agosto de 2010 | 00h00

Bróder. Filme de Jefferson De, incluído à pressas na competição, resultou em começo impactante para a 38ª edição do evento. 

 

 

 

 

Histórias de família deram o tom na abertura do 38.° Festival de Gramado. Inicialmente programado para abrir o evento fora de concurso, Bróder, de Jeferson De, foi incluído às pressas na competição, depois de concorrer em Paulínia e levar quatro troféus, incluindo o da crítica. Foi um começo impactante para Gramado 2010 e o filme desde logo é candidato aos prêmios de interpretação. É pouco provável, para não dizer impossível, que surja outra mãe mais sofredora - e convincente, no sofrimento - do que a interpretada por Cássia Kiss.

O programa da primeira noite foi duplo: Bróder, seguido de Enquanto a Noite Não Chega, que o cineasta gaúcho Beto Souza adaptou de um dos grandes autores do Rio Grande do Sul, Josué Guimarães. Na entrevista ao Estado, o curador José Carlos Avellar - que faz a seleção em dupla com Sérgio Sanz - deixou claro que ambos não acreditam no modelo de festival competitivo. Gramado não se pretende um campeonato de filmes, mas um ponto de encontro para discussão e confronto de ideias e sistemas de produção.

 

Jefferson De fez o filme dele com apoio de uma major, a Sony, e de grandes empresas como a Globo e a Lereby (de Daniel Filho). Toda essa estrutura foi montada para viabilizar que um jovem autor egresso da periferia pudesse dar seu testemunho, de dentro, sobre a violência urbana. A zona escolhida foi o Capão Redondo, em São Paulo. É aí que, durante um dia, três amigos se reencontram. É aniversário de um deles, o único que permaneceu no local. Os outros são um jogador que foi para a Espanha e agora vive a tensão de ser convocado ou não para a seleção brasileira, e outro que não foi tão longe, mas conseguiu criar uma vida fora dali.

 

O trio encontra-se para uma feijoada. A mãe, Cássia Kiss, olhando para o filho, Caio Blat, diz que tem um pressentimento, uma dor "aqui" e aponta o peito. O jogador deixou uma namoradinha grávida. Traz presentes para todo mundo. A cena é ótima. Ele traz um uísque para um homem que deixou de beber, um santo para uma devota que virou crente. Mais do que detalhes divertidos, esses desacertos preparam o espectador para a inevitabilidade da tragédia. Ela explode quando Caio Blat, pressionado por criminosos com quem está em dívida, é cooptado para sequestrar o príncipe (o jogador).

 

Jefferson De fez um belo trabalho de preparação de elenco (com Sérgio Penna). Personagens e situações são intensos, reais. É mais do que se pode dizer de Enquanto a Noite Não Chega. O filme de Berto Souza é sobre um casal de velhos cujo filho partiu de trem para a guerra. Eles esperam - o quê? Não mais a volta, mas a morte, numa cidade tão esvaziada quanto eles próprios. Berto Souza e o fotógrafo Renato Falcão, com crédito de codireção, optaram por filmar com uma nova câmera digital, a Red, em 4 K. Foi dada grande importância à novidade tecnológica, mas a projeção digital não esteve à altura e digamos que o filme não impressionou muito por esse lado.

 

Impressionou menos ainda como pathos. Os atores, Miguel Ramos e Clênia Teixeira têm currículo - ela, predominantemente no teatro. Atores de verdade são bons em qualquer mídia, mas precisam ser bem dirigidos. Ramos e Clênia põem ênfase exagerada nos mínimos gestos e, quando falam, dão a impressão de declamar. Nada menos de acordo com o espírito naturalista do belo texto de Josué Guimarães. Para complicar, há excesso de música - ela vira personagem indesejável nesta tragédia que exige o silêncio para potencializar a dor que sentem os pais privados do filho. Quem quer que tenha lido o livro talvez o identifique no belo filme da paraguaia Paz Encima, Hamaca Paraguaya, ou na peça inédita de Dib Carneiro, Paraíso. Cada um tem seu casal de velhos em atitude de espera. Nem Dib nem Paz conhecem o livro de Guimarães, mas o próprio autor gaúcho se reconheceria no trabalho deles. Não são adaptações, no entanto.

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