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A família do comercial e a minha

Quase toda literatura cômica e trágica envolve encontros familiares, como em ‘Hamlet’

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

19 Dezembro 2018 | 05h00

O fim do ano tem uma barreira alfandegária: o imposto da presença familiar. Quase impossível escapar daquilo que é o prazer de muitos e o sofrimento de outros tantos. Sim, “família é tudo para mim” e essa frase de rede social tem a ambiguidade, porque tudo pode incluir tudo de bom ou de ruim. Quase toda literatura cômica e trágica envolve encontros familiares e seus desdobramentos: Medeia de Eurípides; Os Sete Gatinhos de Nelson Rodrigues; Um Bonde Chamado Desejo de Tennessee Williams; O Avarento de Molière; Hamlet de Shakespeare ou Casa de Bonecas de Ibsen. Sem família não existiria literatura e nenhum terapeuta teria emprego. 

Como surgiu o modelo que identificamos como família? No século 19, Lewis H. Morgan escreveu livros que se tornaram referência em sua época, como Systems of Consanguinity and Affinity of the Human Family (1871) e Ancient Society (1877). Neles, o norte-americano propôs teses muito interessantes, como a vinculação entre progresso técnico, social e as estruturas familiares. Karl Marx leu atentamente essas obras. Quando morreu, seu amigo e parceiro intelectual, Friedrich Engels, analisando as anotações do falecido e o livro do americano, produziu outro clássico sobre o assunto: A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado (1884). Tanto Morgan quanto Engels cravaram que as sociedades primitivas começavam suas lógicas familiares como matriarcados e que, com o passar do tempo e o aumento da complexidade, desenvolviam formas patriarcais. Engels articulou ainda mais coisas ao processo: matriarcados combinavam com prosperidade coletiva, por exemplo, ao passo que a propriedade privada combinava com o patriarcado. Algumas dessas teorias caíram por terra depois de um século e meio, porém os textos se tornaram referência. 

Com o advento do Cristianismo, outras nuances foram se naturalizando. O preceito do Velho Testamento de que a mulher deve servir ao marido casou-se muito bem com o patriarcalismo romano e pautou o imaginário medieval europeu. Agostinho, que, como muitos de seus contemporâneos cristãos, tinha horror ao ardor sexual (especialmente feminino), condenava o sexo fora do casamento, mas recomendava que mulheres e homens casados dividissem o leito conjugal. 

Com o matrimônio santificado, o aborto vira tabu, os filhos se tornam, no plano ideal, cópias das virtudes dos pais. O casamento é um sacramento, mas diminui quem o faz: o estado celibatário é tido como superior e melhor. Paulo escreve aos coríntios a carta que mais pautou a lógica familiar milênios adentro: “Digo, porém, aos solteiros e às viúvas: É bom que permaneçam como eu. Mas, se não conseguem controlar-se, devem casar-se, pois é melhor casar-se do que ficar ardendo de desejo”.

O amor materno, hoje visto como natural, vinha ganhando força desde o século 15, quando o vemos aparecer em pinturas flamengas e francesas. Não era normal que a mãe amamentasse, por exemplo. A prática de amas de leite continuou até o século 20. Como o mundo doméstico se fechou como universo da mulher, ela se viu absorta com os muitos afazeres. A criança mais velha cuidava da mais nova, ou parentes ou empregados assumiam esse papel. Ao homem, a esfera pública, do trabalho, da produtividade. O papel do provedor que nunca está em casa e que não se interessa por ela. A moral vitoriana do século 19 cuidava para que corpos, desejos e novos matrimônios estivessem sob o controle dos pais e de contratos firmados. Casamento era algo que se fazia não por amor, mas por manutenção de propriedades e sobrenomes. Exceção (ou regra, pois era mais numerosa), uma vez mais, aos pobres, que se casavam sem se preocupar muito com aquilo que não possuíam. Até a maioridade da vida urbana e industrial, a família estendida era o sol ao redor do qual todos orbitavam: trabalhava-se em família, nos negócios de um parente; recorria-se à família em caso de doenças, mortes, para levantar dinheiro, para saber notícias e conformar valores. A consolidação do Estado e da ideia de indivíduo implodiu esse modelo, embora ele resista como imaginário. 

A partir de 1960, os filhos não quiseram mais o modelo dos pais. A mulher ganhou, de vez, o mercado de trabalho, o direito a voto e alguma equiparação salarial. A pílula anticoncepcional deu um pouco mais de controle do corpo às mulheres. Mais homens quiseram participar da criação de seus filhos, segurá-los no colo e lavar a louça. Mais mulheres passaram a ser arrimo de família, mesmo que houvesse maridos em casa. Surgem casamentos sem filhos, por opção. O divórcio deixa de ser um estigma. Lentamente, emergem o fim do patriarcado e a condenação da violência doméstica.

Como você viu, querida leitora e estimado leitor, há muitos modelos de família e houve muitos tipos ao longo da história. Não há uma essência, apenas existências. Sua família existe e foi fundamental na definição do seu modo de ser. Não existem pais perfeitos, porém, anime-se, você também não é um filho perfeito. Irmãos são uma espécie de fluxo permanente e, nem sempre, visível, mas ali, sob as camadas superficiais, correm em níveis profundos. Sei que a família é uma invenção histórica. Como pessoa fruto da história, amo a minha e estou ansioso pelo fim do ano. Afinal, é sempre preciso ter esperança.

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