''A fama é pernóstica e a celebridade um equívoco''

Carolina Ferraz fala sobre fama, carreira e a turnê de seu novo espetáculo

Sonia Racy, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2011 | 00h00

Encontros com o Estadão

Carolina Ferraz não equaliza o volume da sua gargalhada. Ri com gosto, a cada observação da coluna. Uma revelação para quem tem (ou tinha) fama de brava, difícil, temperamental. "Você está atrasado, isso já passou", esclarece. E embora se diga surpresa, suas colocações sugerem que ela não dá a mínima para carimbos. Atriz e produtora, Carolina parece ser daquelas que não se mobilizam ante aval alheio. Escreve, inventa projetos, convida amigos para apostar junto, vende ideias em empresas, faz TV, teatro, testa-se na internet, e foca na educação de Valentina, sua filha adolescente. "Sou uma pé-de-boi", resume.

Quando exausta, tira períodos sabáticos e... não descansa. Estreou, em janeiro, no Rio, como atriz e produtora, a peça Amores, Perdas e Meus Vestidos. Com sucesso. E vai trazer o espetáculo para São Paulo este ano, em setembro ou outubro, depois de turnê nacional. Também está envolvida na produção do filme A Graça e a Glória, onde será um travesti. E acaba de ser escalada para compor a diretora de uma construtora em O Astro. Aqui, vão trechos da sua entrevista concedida em Sampa, no início do mês.

O que mais chama atenção quando se analisa sua carreira é descobrir que você é bem atuante como produtora. A autogerência é uma vocação?

Não acho que é um privilégio, é quase prerrequisito. Se você quiser fazer algo fora da TV precisa se produzir. Amores, Perdas e Meus Vestidos, que estreei em janeiro no Rio, é a quinta peça onde também atuo como produtora. Ao mesmo tempo, estou na batalha com o longa A Glória e a Graça. Quero filmar ainda neste ano.

Mesmo sendo conhecida nacionalmente, começa do zero sempre a cada projeto?

Quando se é mais conhecida, as chances são maiores. Mas não quer dizer que seja mais fácil. Para se produzir algo relacionado à cultura dependemos de leis de incentivo. Às vezes se consegue, às vezes não.

Você também criou e filmou curtas para a internet. Sua ligação com tecnologia é forte?

Não é nada forte. Foi uma brincadeira, sem a menor pretensão. Fiz tudo na minha casa e botei no ar. A ideia era dramatizar histórias de amor. Pedi que os internautas me enviassem casos, escolheria os três melhores e os interpretaria. Mas terminou sendo sete histórias, em dois anos, e acho que o projeto todo gerou quase 3 milhões de acessos.

Como chegou a Amores, Perdas e Meus Vestidos?

Adorei o texto. Sou fã de Nora Ephron (autora, junto com a irmã, Delia) e a história é inteiramente verídica. Embora sejam observações femininas, os homens também morrem de rir porque veem o ponto de vista autocrítico das mulheres. A gente não faz papo calcinha de falar mal de casamento, de sexo ou de homem.

Você está há três anos sem fazer novela. Consegue tirar anos sabáticos?

Acho que é necessário. Estava numa batida de cinco anos fazendo uma coisa atrás de outra. Gosto muito de trabalhar, sou super pé-de-boi, não tenho problema com isso não. Se alguém disser "vamos nessa?", vou lá e faço. Mas acho que também é preciso se reciclar. As pessoas ficam cansadas da nossa imagem e acho que depois volto sempre mais inspirada, com mais garra e energia e, claro, você vive coisas e devolve isso para o seu público. Por outro lado, não fico nunca exatamente parada.

Até faculdade de história já fez.

Mas não me formei. Serei até jubilada. Preciso ver isso. Vai demorar dez anos para eu me formar porque faço uma matéria por ano. Gosto muito de ler.

Do que gosta de ler?

Adoro ler romance, novela... Nada muito inteligente! Pronto, falei. (risos)

Consegue ir a um cinema sem ser muito assediada?

Tenho sorte, as pessoas são carinhosas comigo. Mas essa coisa da celebridade é que é o grande equívoco. A fama é pernóstica. Eu me esforço muito para ficar à margem disso porque gosto de ver meus amigos, sair para jogar conversar fora, de me sentir confortável. Tenho um nome, uma reputação, uma carreira atrás de mim, mas tudo que vem da fama é nocivo e pernóstico. Ela em si é vazia. Não consigo imaginar uma pessoa que vive para ser famosa.

Você é daquelas que tem meta? Uma personagem-alvo, um texto que precisa ser seu?

Daqui há dez, 15 anos, quero montar Filumena Marturano (de Eduardo de Fillipo), texto que sou apaixonada e em que preciso ser mais velha para fazer. Adoraria também pegar uma novela e criar um personagem mais popular, sabe? Adoro fazer comédia, é uma delícia. Eu tô mais disponível para enlouquecer.

Você falou que está pronta para enlouquecer. Como foi a preparação para viver o travesti de A Graça e a Glória?

Foi maravilhoso. Conheci nada menos que 60 travestis.

O que uma mulher como você aprende com eles?

São mulheres incríveis. Andava com elas nos bares embaixo do Minhocão e não olhavam pra mim não, meu amor, ficavam de olho na moçada ao meu redor. São super femininas porque levam a feminilidade a uma potência que nós, mulheres, às vezes deixamos para lá porque temos que ser fortes. Mas quem disse que elas não são fortes? Além disso, são divertidas. Estou torcendo para que esse projeto dê certo. Produzir tem deadline. Me dei três anos para concluir isso. Se não, aborto e faço outra coisa. (risos)

Além de travesti, já viveu uma lésbica na TV.

Casei com Mônica Torres em Belíssima (de Sílvio de Abreu). Eu gosto de fazer qualquer coisa. Só não quero mais fazer mulher rica, milionária. (risos)

A TV, tanto a aberta quanto a paga, está cheia de reprises. Como se viu em Por Amor e Pantanal, que passaram recentemente?

Manoel Carlos (de Por Amor) sempre foi generoso comigo e a novela teve um casal (seu par era Eduardo Moscovis) que era tão entrosado e feliz que ele teve de criar um conflito para eles se separarem. Agora, sobre Pantanal, lembro que tava gordinha na época, com bochechas enormes! (risos) Tinha 21 anos!

E ser mãe de adolescente?

É uma relação particular. A Valentina é uma menina muito responsável. Ela não vai daqui para outro lugar sem dizer "mãe, tô indo" ou "mãe, posso ir?". Já disse para ela que não dá para ter liberdade sem responsabilidade. Na primeira vez que derrapar, a gente vai ter de resolver de outra forma. Não sei ser mãe de muito diálogo, mas quando precisar conversar, eu tô ali. Sou mãe, não sou brother da minha filha.

Você sabe de sua fama de mulher difícil?

Não concordo que ela ainda exista. Se existiu, já foi. E isso é coisa que vem da fama. Quando a gente começa a fazer sucesso jovem se atrapalha um pouco. Talvez eu tenha me atrapalhado, por que não? Fiquei famosa muito nova, mas isso já passou. Uma pessoa que tenha contato comigo no trabalho, numa entrevista, sai com isso desmistificado. Até porque não é uma coisa que eu cultive. Não acho que seja algo agradável. No mais, vou levando a minha vida. / JOÃO LUIZ VIEIRA

Colaboração

Débora Bergamasco debora.bergamasco@grupoestado.com.br

João Luiz Vieira joao.vieira@grupoestado.com.br

Marilia Neustein marilia.neustein@grupoestado.com.br

Paula Bonelli paula.bonelli@grupoestado.com.br

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