A face oculta de Cartier-Bresson

Catálogo da retrospectiva do fotógrafo francês no MoMA, de Nova York, traz revelações sobre sua vida pessoal que ajudam a esclarecer como se formou o sofisticado e original olhar do artista

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2010 | 00h00

Acena acima foi fotografada em Pequim pelo francês Henri Cartier-Bresson (1908- 2004) em dezembro de 1948, pouco antes da tomada do poder pelos comunistas. No último avião a deixar a cidade, o fotógrafo voou para Xangai, onde fez essa que é uma de suas melhores fotos, a de uma multidão desesperada de chineses tentando trocar por ouro cédulas bancárias prestes a virar nada. É fotojornalismo puro, sem necessidade de legendas. O pânico está impresso em cada um dos rostos, assim como, na foto menor, fica evidente a comoção do encontro entre uma mãe e seu filho, separados durante a guerra, em um píer de Nova York - cena registrada dois anos antes, em 1946. São imagens como essa que o espectador privilegiado viu na retrospectiva do fotógrafo que ficou em cartaz até junho no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA). Quem perdeu, não precisa ficar necessariamente frustrado. A exposição está totalmente registrada no luxuoso livro Henri Cartier-Bresson - O Século Moderno, lançado esta semana pela editora Cosac Naify em mais uma parceria com o MoMA, após a publicação conjunta, em 2009, do catálogo da mostra de Mira Schendel.

Não é apenas um catálogo, mas um ensaio sobre a formação e a carreira do fotógrafo e criador da agência Magnum com Robert Capa (1913-1954). Fala pouco das suas influências, até mesmo porque Cartier-Bresson só admitia uma, a do fotógrafo húngaro Martin Munkácsi (1896-1963), fotojornalista especializado em esportes de quem viu, nos anos 1930, uma foto que decidiu seu futuro. Eram garotos nadando no lago Tanganica, na África Central, cujos movimentos foram captados de forma delicada por Munkácsi. Peter Galassi, curador da retrospectiva de Cartier-Bresson no MoMA, menciona Munkácsi apenas duas vezes no livro, a primeira quando fala do advento das revistas que usavam fotos dele e outros mestres (Kertész, Irving Penn, Richard Avedon) e a segunda quando trata de sofisticados fotógrafos que fizeram do movimento congelado um tema em si mesmo.

Cartier-Bresson, que começou a praticar fotografia como amador nos anos 1920, ficou, aliás, conhecido por uma dessas fotos, a do homem que pula sobre uma poça d"água atrás da Gare Saint-Lazare (1932), em Paris, movimento eternizado no ar que copia o do cartaz de um circo colado na parede, onde uma acrobata dá um salto em direção oposta à do modelo real. O fotógrafo tinha 24 anos, era um filho dileto da burguesia francesa - seu pai foi dono de uma fábrica de linhas -, militante comunista, parceiro dos surrealistas e um intelectual refinado, leitor de Proust e amigo íntimo de gays rebeldes que abalaram Paris na era do jazz. Entre esses estavam o escandaloso pintor Christian Bérard, seu namorado galerista Pierre Colle e o poeta suicida René Crevel. Com a abertura dos arquivos da Fundação Cartier-Bresson, o envolvimento do fotógrafo com os garotos ficou público. O curador da mostra dá a entender que, embora tímido, suas relações com esses modelos "eram tudo, menos distantes". Dá para perceber. Há uma foto de Colle na cama, enrolado em lençóis e cara de quem acabou de acordar.

A viúva de Cartier-Bresson abriu sem restrições o arquivo para Galassi, que não usa essas fotos como peças de escândalo, mas para mostrar que o olhar de Cartier-Bresson era dividido entre a ordem burguesa em que crescera e a rebeldia dos modernistas - e ele foi amigo de todos os pintores que importavam na cena parisiense, de Bonnard a Picasso, passando por Matisse e Miró, dupla com a qual assinou livros reproduzidos no catálogo. Embora seu foco seja o fotojornalismo de Cartier-Bresson, impulsionado por Robert Capa, o livro fala muito da sua ligação com as artes visuais, seja a pintura surrealista ou o cinema - ele dirigiu documentários (Victoire de la Vie) e atuou em dois filmes de Renoir, La Vie Est à Nous (1936) e A Regra do Jogo (1939); no primeiro, como um vilão aristocrata que atira num alvo em forma de cabeça de operário e, no outro, como um criado inglês no castelo dos protagonistas.

Renoir sabia que Cartier-Bresson era um homem dividido, fruto dos preconceitos de sua classe social. Sardônico, o cineasta transforma o fotógrafo em aristocrata arrogante que dispara contra a classe trabalhadora - crítica à elite francesa, da qual Cartier-Bresson fazia parte - e, depois, em A Regra do Jogo, em alguém que é vítima da opressão burguesa. Óbvio que o fotógrafo tinha consciência dessa contradição, a tal ponto que seu engajamento o levou a fazer reportagens na África sobre as colônias francesas, a registrar como viviam os russos na ex-União Soviética e acompanhar os primeiros passos da revolução comunista na China. Sem ele, o "século moderno" poderia ter perdido um de seus melhores, ou, no parecer de Galassi, seu melhor intérprete.

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