A fabulosa história do rei do Congo

Aqui, Paulo César Pinheiro narra a fabulosa história de Chico Rei, que ele acaba de escrever para o teatro: "Ele era um rei mesmo, rei do Congo, que foi aprisionado durante uma guerra entre tribos e trazido por negreiros para o Brasil. Houve uma tempestade muito forte em alto-mar, e eles jogaram metade dos crioulos nas águas para diminuir o peso do navio. A mulher e a filha foram numa leva dessas. Chegaram aqui ele, o filho e o resto da tribo. Ele e mais uns 40 escravos foram comprados por um latifundiário mineiro, dono de uma mina de ouro, e o resto ficou no Rio. No Congo Chico era minerador. Quando foi trabalhar na mina, o latifundiário ficou encantado com ele, porque fez o cara enriquecer.

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2010 | 00h00

"Foi o primeiro black power no Brasil. Deixou o cabelo crescer, raspava o ouro e jogava a poeira dentro da cabeleira. À noite, lavava o cabelo no tanque da senzala e guardava o pó de ouro. Foi juntando ouro e comprou a alforria dele, ficou livre e virou empregado assalariado do dono da mina. Continuou fazendo o mesmo truque, comprou a alforria do filho."

Abolicionista. "Com tudo o que ele ganhava foi comprando a alforria da tribo dele. Até que um dia, já mais velho, o latifundiário também mais velho, achando que a mina estava esgotada, tentou empurrar pra ele. Ficou aquela conversa de cerca-Lourenço, ele fez que não queria, e o cara acabou vendendo a mina pra ele. Era tudo o que Chico queria, porque sabia que tinha um veio de ouro muito maior que o cara não sabia. Quando foi lá, ficou milionário. Veio ao Rio e comprou o resto da tribo. Foi o primeiro abolicionista.

"O Império (a Coroa) começou a ficar com medo porque tinha mais negro livre do que branco em Ouro Preto. Começaram a tramar contra ele. O que ele faz? Se junta à Igreja, se converte, vira católico, porque a Igreja tinha poder. Aí começa a construir igrejas e a dar de graça pros padres. A Igreja jogou um manto sobre ele: "Ninguém toca nesse cara." Então, ele pediu permissão para fazer uma festa de inauguração da Igreja de Santa Edwiges, uma das muitas que ele construiu. Como é que era a festa? A coroação do Rei do Congo, que foi a primeira congada do Brasil. Ele se vestiu de rei e foi coroado de novo. Virou o Chico Rei."

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