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A extrema direita em transe

Uma amiga me enviou um filminho com cenas de uma manifestação realizada no primeiro dia deste mês.

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2014 | 02h05

"Não lembra Terra em Transe?", ela perguntou, assustada.

Achei exagerada a menção ao filme de Glauber Rocha. É verdade que "Eldorado", o país imaginário de Terra em Transe, é tão vasto quanto esta América. A loucura do anticomunista Porfírio Diaz não é nada anacrônica; a corrupção na república de Eldorado é, sim, crônica. E há síndromes terríveis à direita e à esquerda.

Porfírio Diaz, interpretado por Paulo Autran, é um louco feroz. Porfírio estaria à frente de um grupo de extrema-direita em duas passeatas recentes: a da véspera do Dia dos Finados e a dessa última, do dia 15. Mas não vamos confundir fato com ficção, nem personagem com pessoa.

No breve documentário, o sujeito que lidera a extrema-direita é um deputado federal recém-eleito, que bem poderia representar as garras e as armas do fascismo, do "nosso pequenino fascismo tupiniquim", como escreveu ironicamente Graciliano Ramos, preso sem acusação formal, pouco tempo antes do Estado Novo.

Ao ver o filminho, percebi que há pelo menos uma cena glauberiana: esse deputado aparece no palanque com pistola na cintura, discursando com uma pose difícil de definir: algo entre leão de chácara de inferninho e policial de filme B.

Enquanto diz asneiras a uma plateia que o aplaude freneticamente, a câmera foca a pistola na cintura. Quando o Masp é enquadrado, temos certeza de que estamos em São Paulo; quando a câmera enquadra o orador armado, ou quando aparece um cartaz do tipo "SOS Forças Armadas", o espectador é conduzido a um país de pesadelo. E tudo isso diante de policiais paulistas, estes sim, legalmente armados, pois devem proteger os cidadãos de possíveis agressões. Mas quem eram os agressores?

Em algum momento da passeata, houve discórdia. Um grupo protestava contra corrupção e pedia o impeachment da presidente reeleita. Outro, exigia a recontagem dos votos; um terceiro grupo, mais feroz, clamava pela volta dos milicos e mandava os petistas para Venezuela e Cuba. Ou para o inferno.

Alguns eleitores mais ou menos abastados, e frustrados com a derrota de seu candidato, alardeiam: "Vou morar em Orlando". Por que tanto alarde? Ninguém é proibido de viajar. Num determinado período da ditadura, os brasileiros que queriam viajar para o exterior tinham que obter um visto de saída. E qualquer ato ou passeata contra o regime militar era violentamente reprimido.

Seja qual for o próximo presidente, vou ficar por aqui mesmo, a poucos metros do Largo da Batata, tomando uma cachaça mineira no balcão do Fiofó do Padre, conversando com fiéis que saem da igreja Nossa Senhora do Monte Serrate (que linda a Monte Serrate!), trocando palavras com mendigos, comerciários e estudantes... Nenhum presidente eleito pelo povo me tira do Largo da Batata. Mas se um militar ou civil golpista tomar o poder, aí, meus amigos, a história é outra...

Se essa desgraça acontecer, não irei para Caracas, Havana, Orlando nem para o inferno. Bem que gostaria de ir embora pra Pasárgada, mas isso só é possível na imaginação.

Aliás, de tanto falarem em "Orlando", me deu vontade de reler o grande romance de Virginia Woolf. Essa é a viagem mais fascinante.

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