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A explicação

Ele só chegou em casa na quinta-feira. Bermuda suja, camiseta de um bloco da Bahia. Quando ia começar a falar, a mulher levantou a mão e disse: 'Espera. Vou chamar as crianças'

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

17 de setembro de 2017 | 03h00

Ele só chegou em casa na quinta-feira. Bermuda suja, camiseta de um bloco da Bahia. Quando ia começar a falar, a mulher levantou a mão e disse:

– Espera. Vou chamar as crianças.

As “crianças”, na verdade tinham 18 e 17 anos. Olharam o pai com curiosidade.

– Onde você andou, papai?

– Eu...

A mulher o deteve outra vez. Foi chamar os vizinhos. Só quando já tinha uma dúzia de pessoas dentro da sala, incluindo o seu Euclides do andar de baixo, ele pode começar a falar. Mas estranhou a cara da mulher. Não era a cara de uma mulher indignada com um marido que desaparecera de casa na sexta-feira antes do carnaval e só voltara na quinta, de bermuda suja e camiseta do “Muqueca com farofa”. Ela estava sorrindo. Ela estava olhando para ele com carinho.

*

– Que cara é essa, mulher?

– Você não existe, sabia?

– Como, não existo?

– Você é uma anedota antiga. Marido que foge no carnaval e volta com uma explicação ridícula. Isso é pura nostalgia. Só você, mesmo...

– Deixa ele dar a explicação, mãe.

Ele hesitou. Depois contou que tinha sido sequestrado por alienígenas e, quando vira, estava atrás de um trio elétrico em Salvador. Fora trazido de volta pelos mesmos alienígenas.

*

Foi aplaudido. O seu Euclides, do andar de baixo, era o mais emocionado. Aquilo lhe lembrava o seu tempo, quando ele também escapava no carnaval e depois precisava inventar uma desculpa para a patroa. Bons tempos. Não voltavam mais. A não ser assim, como reconstrução histórica, para as crianças.

*

A mulher estava abraçando o marido, dizendo “Vá tomar seu banho, vá”. Ele devia estar cansado, depois de pular todos aqueles dias atrás de um trio elétrico. Sem falar nas viagens de ida e volta, na espaçonave. Só ele mesmo...

Quando arrombaram a porta do banheiro, horas depois, ele tinha saído pela janela. Ainda bem que a nave dos alienígenas ficara por perto. Ele iria pegar no mínimo mais três dias em Salvador, onde, como se sabe, o carnaval nunca acaba. 

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