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A experiência de entender o outro

Neta de brasileiro, criada na África, a francesa Claire Denis ganha retrospectiva no Indie 2011, que começa hoje

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2011 | 00h00

Entrevista

Claire Denis

Neta de brasileiro - de Belém do Pará -, a cineasta francesa Claire Denis virou uma autora apreciada no circuito dos festivais. Os críticos respeitam sua exigência, o público mais seletivo - os chamados "cinéfilos" - tentam decifrar a intimidade despojada, quase sobrenatural, de seus planos. Claire Denis ganha retrospectiva no quadro do Indie 2011 - Mostra do Cinema Mundial, que começa hoje. Serão 20 títulos, todas as 11 ficções que ela fez, mais três documentários e seis curtas. O evento também contempla outro grande autor, o húngaro Béla Tarr. Com retrospectivas, homenagens e uma bela seleção de títulos, o Indie 2011 oferece uma alternativa importante ao mainstream, leia-se Hollywood, vigente nas telas do País. Leia a entrevista que Claire concedeu, de Paris, pelo telefone.

O que a senhora diria para o espectador brasileiro que vai poder assistir à íntegra de sua obra?

Que ele está tendo uma possibilidade de que nunca desfrutei! Minha obra já foi temas de outras retrospectivas, mas nunca assisti à integra dos meus filmes, digo de forma contínua, de uma só vez. Minha visão é fragmentária e fragmentada. Penso nos filmes, nas particularidades de cada rodagem. Faço conexões, mas poderia ser diferente, deve ser diferente ver todos os filmes de uma só vez.

Os organizadores mostraram para nós L"Intrus, O Intruso, de 2004. Que lembrança guarda desse filme?

Ele está muito vivo na minha lembrança, e vou lhe dizer por quê. Há um mês morreu a atriz russa do filme, Yekaterina Golubeva. Inevitavelmente, lembrei-me da nossa convivência, do que ela trouxe para O Intruso. E, como consequência, também voltei ao passado, ao momento de lançamento, quando morreu o produtor Humbert Balsan. Foi uma figura extraordinária, o tipo do produtor que não existe mais. Preocupava-se com o mercado, claro, pois é uma ocupação dos produtores, mas estava do lado dos autores, lutando por um cinema de expressão artística e autoral.

O filme baseia-se num texto de Jean-Luc Nancy. É um filósofo na tradição de Heidegger. Como em Jacques Derrida, sua produção se ocupa da restituição do ser. Foi o que lhe interessou?

Jean-Luc é um filósofo muito respeitado e um escritor refinado, mas esse não é um livro de filósofo. O texto está disponível na internet, na versão inglesa. É um texto curto, cerca de 30 páginas. E é muito mais um testemunho de Jean-Luc da sua condição cardíaca. Ele sofreu um transplante e o texto se indaga justamente sobre as possibilidades de sua nova vida. O coração novo não implica novos valores, numa reconstrução do ser. O corpo carrega o velho, o que já está arraigado e é uma discussão que me parece muito interessante, muito rica.

A retrospectiva ocorre no quadro de um festival indie, de filmes independentes. O que tem a dizer sobre isso?

Que não é uma escolha minha. Não faço filmes independentes por escolha, mas, talvez, por opção. Quando comecei, estava ansiosa por me comunicar, por atingir o público. As circunstâncias foram me confinando nesse gueto indie. Não me queixo. Indie, mainstream, acho que cada um termina fazendo aquilo que pode, ou sabe. Foi uma coisa que aprendi com Wim Wenders. Tive o privilégio de ser assistente de diretores como Jacques Rivette, Costa-Gavras, Jim Jarmusch e Wim. Foram experiências muito diferentes. Wim foi decisivo pelo estímulo que representou para mim. Nada disso de dizer "Claire, você é ótima, é genial". Havia iniciado o curso de economia, antes de fazer cinema, mas a importância de Wim, em minha vida, foi ter me mostrado que a economia é tão decisiva para um filme quanto o roteiro. É uma ferramenta. O dinheiro de que você dispõe vai delimitar o território em que seu filme vai existir.

O Festival Indie também propõe uma retrospectiva de Béla Tarr. O que pensa do autor húngaro?

Bela é uma figura extraordinária, e falo tanto da obra quanto do homem. Não o conheço, infelizmente, apenas a seus filmes. Admiro-o. Respeito-o. Nossos cinemas são bem diversos. Identifico nele um desejo de invisibilidade que não consigo ver na minha obra. É um grande autor.

Em Berlim, este ano, ele anunciou que está parando com o cinema. Assistiu ao que poderá ser seu último filme, O Cavalo de Turim?

Não fui à Berlinale este ano e O Cavalo ainda não estreou na França. O último filme de Béla Tarr a que assisti foi O Homem de Londres, que é muito bom.

De volta aos autores de quem você foi assistente, o único a quem você dedicou um filme, um documentário, foi Rivette, Le Veilleur. Por quê?

Com alguns diretores, posso dizer que trabalhei, e foram convivências muito fortes. Com Rivette, foi outra coisa. Ele me chamou, não para ser sua assistente, mas para compartilhar seu território. Me permitiu avançar na observação do seu método, que é muito particular. E o seu trabalho com atores é sempre prodigioso.

Apesar de todos os grandes filmes que fez, o "meu" Rivette é Ne Touchez pas la Hache. Gosta do filme?

Muito, embora no caso de Jacques me seja impossível lembrar um de que não goste. Muitas vezes, não logramos fazer os filmes que sonhamos. Existem filmes meus que não saíram exatamente como queria, mas Jacques é tão particular que tenho a impressão que seu método resulta somente em coisas boas.

Se a gente for analisar sua obra como um todo, independentemente de considerações de linguagem, quanto a estilo, acho que o que a define é o seu olhar tolerante em relação ao outro. Isso vem da sua formação, não?

Tenho uma história familiar que termina por se refletir em certos filmes. Por exemplo, White Material, com Isabelle Huppert, de 2008. Meu pai era um funcionário francês que nasceu em Bangcoc, mas trabalhou basicamente na África. O pai de minha mãe era brasileiro, de Belém do Pará. Passei minha infância e parte da juventude, antes de me fixar em Paris, numa itinerância pela África. Culturas, línguas, cor da pele, temperos, tudo era tão diferente de um lugar para outro. E ainda havia aquele ramo misterioso da vertente brasileira da família. Sempre fui francesa, consciente de pertencer a esse país, de ter essa nacionalidade, mas vivi sempre com o outro. Isso, é claro, se refletiu na minha personalidade e no meu cinema. Os críticos podem analisar a linguagem dos meus filmes, as influências, e estarão fazendo sua função, mas eu diria que, basicamente, o que me interessa são as pessoas.

White Material chamou-se Minha Terra, África, no Brasil. Isabelle Huppert queria que você adaptasse Canção da Relva, de Doris Lessing, mas o projeto evoluiu para outra coisa. Por quê?

Creio que já conversamos sobre isso. Havia lido o livro e ele não me interessou particularmente como material para uma adaptação. Na verdade, já usara parte de Canção da Relva como sugestão para Chocolate, de 1988. Embora tenhamos ambas vivido na África, minha experiência foi diferente da de Doris. Ela pertencia a uma família de agricultores, tinha uma ligação mais profunda com a terra. E o livro passa-se na África do Sul antes de (Nelson) Mandela. Propus a Isabelle que fizéssemos algo mais contemporâneo, baseado no que ocorreu e continua ocorrendo na Libéria, em Serra Leoa. Não queria ficar falando só da perspectiva do europeu. A esperança da África está nos africanos, por isso a mudança de foco e o fato de o filme se encerrar no menino.

Você tinha consciência de ser uma branca, na África? O título White Material carrega alguma forma de ironia?

Não diria que se trata de um título irônico, mas a África costuma ser tratada como um mito, uma terra idealizada, sinônimo de selva, leões, de pessoas diferentes, porque negras. Essa mitificação deixa claro quão pouco conhecemos do continente. Na França, pouca gente percebe as diferenças existentes entre a parte central e a porção norte da África e é algo difícil de ser definido, porque o continente foi colonizado por muitos povos. Houve influência de colonizadores franceses, alemães, holandeses, portugueses, árabes. Nos tempos em que vivi em solo africano, com meu pai, não fazia ideia do poder que era ser branca naquela região. Depois, sim, e acho que esse deslocamento, por assim dizer, se tornou a chave da minha vida, e obra, mas cabe aos outros, ao público, aos críticos, construir sua visão. O que eu penso é só um ponto de partida. A riqueza do cinema consiste em oferecer ao espectador as ferramentas para que ele próprio refaça, no imaginário, o filme da gente.

INDIE 2011

Cinesesc. Rua Augusta, 2.075, tel. 3087-0500

Cine Olido. Av. São João, 473, tel. 3331-8399 Grátis. Até 29/9. Programação: www.indiefestival.com.br

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