A experiência da prosa de laboratório

Prosa do Observatório, de Júlio Cortázar, é o volume 3 da Coleção Signos, da Editora Perspectiva, (...). Traduzido por Davi Arrigucci Jr., estudioso da literatura hispano-americana e autor de um excelente livro de interpretação da obra de Cortázar (O Escorpião Encalacrado, Editora Perspectiva), Prosa do Observatório, que inclui fotos dos observatórios do sultão Jai Singh (Jaipu, Delhi) tiradas por Cortázar em 1968, inspira-se no ciclo das enguias, cujas referencias, explica o autor, estão em um artigo de Claude Lamotte, publicado em Le Monde, Paris, 14 de abril de 1971.

, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2010 | 00h00

É o próprio Cortázar que volta a explicar que "não é preciso dizer que se alguma vez os ictiólogos ali citados lerem estas páginas coisa pouco provável, não deverão ver nelas a menor alusão pessoal; da mesma forma que as enguias, Jai Singh, as estrelas, eu mesmo, são parte de uma imagem que só aponta para o leitor."

(...) Alguns trechos de Prosa do Observatório mostram o empreendimento de Cortázar no sentido da criação literária como uma grande metáfora:

Tudo se corresponde, pensaram com um século de intervalo Jai Singh e Baudelaire, do mirante da mais alta torre do observatorio o sultão deve ter buscado o sistema, a rede cifrada que lhe desse as chaves do contacto: como teria podido ignorar que o animal Terra se asfixiaria numa lenta imobilidade se não estivesse desde sempre no pulmão de aço astral, a tração sigilosa da lua e so sol atraindo e repelindo o peito verde das aguas. Inspirado, expirado por uma potencia alheia, pela graça de um vaivém que através de molas além de toda imaginação se torna mensuravel e como que ao alcance de uma torre de mármore e de uns olhos de insonia, o oceano alenta e dilata seus alvéolos, põe em marcha seu sangue renovado que rompe raivoso nos abrolhos, desenha suas espirais de materia fusiforme, concentra e dispersa as ondas, as enguias, rios no mar, veias no pulmão índigo, as correntes profundas batalham pelo frio ou pelo calor, a cinquenta metros da superfície os leptocéfalos são embarcado no veículo halino, durante mais de três anos sulcarão a tubulação de preciosos calibres termicos, trinta e seis meses a serpente de olhos incontaveis resvalará sobre as quilhas e as escumas até as costas europeias.

Conhecida pelo grande público após o aproveitamento de seu conto "Las babas del diablo", por Antonioni, no filme Blow-Up, Cortazar é tido por muitos críticos como "o maior escritor hispano-americano da última década", (...) Sua carreira literária iniciada em 1951 com o livro de contos Bestiário alcançou o ponto de maior expressão em 1963 com o romance Rayuela, que se acha traduzido no Brasil como título de Jogo de Amarelinha.

Prosa de Observatório Editora Perspectiva, São Paulo, 1974.

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