A experiência da memória

Leia a íntegra da entrevista de Arnoni Prado ao 'Estado'

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

25 Fevereiro 2012 | 03h00

O professor de Literatura da Unicamp, Antonio Arnoni Prado, em entrevista ao Estado, diz que há ainda muito por se estudar no legado literário do escritor e médico reumatologista mineiro Pedro Nava (1903-1984), cujas Memórias ganham reedição a partir de março pela Editora Companhia das Letras, começando pelos dois primeiros dos sete volumes: Baú de Ossos (1972) e Balão Cativo (1973).

 

Veja também:

link 'Quase Diário', artigo de Affonso Romano de Sant'Anna

Arnoni Prado observa ainda que o autor foi buscar inspiração nas melhores fontes da literatura estrangeira - Proust dominando a lista -, dialogando com a obra do irlandês James Joyce e a do francês Anatole France, além dos modernistas brasileiros, sobretudo Mário de Andrade. A seguir, a entrevista concedida pelo professor.

Alguns analistas da obra de Pedro Nava chamam a atenção para o fato de o escritor ser um narrador formado pela cadeia de transmissão oral da experiência. Outros aproximam seu memorialismo da literatura de Proust. Como o senhor definiria as memórias de Nava?

As memórias de Pedro Nava revolucionaram o gênero memorialístico na literatura brasileira. E isto não apenas do ponto de vista da técnica de que o autor se vale para converter o passado numa espécie de metáfora inacabada das sensações que refundam a experiência do sujeito-que-recorda, como se recriasse o mundo à maneira do grande romance do século 19. Mas também do ponto de vista da "voracidade heurística" do narrador, que rearticula estilos, fragmenta a dicção harpejada das vozes que se colam ao estilo livre das citações, das transcrições, da reduplicação documental, dos testemunhos da história e da imaginação ¬  fatores, todos, diante dos quais o leitor não sabe o que mais admirar: se a pujança das cenas recompostas, se a "realidade" das imagens que brotam das fontes mais inesperadas (confissões, cartas, diálogos recuperados em papéis dispersos, mágicas notações poéticas de sentimentos reavivados pelo narrador em temporalidades distintas), tudo isso amarrado pela profusão de estilos que circulam suavemente pela harmonia dos períodos que o narrador vai regendo em chave sinfônica, como um maestro atento e imaginoso.

Antes de Nava existiram muitos memorialistas brasileiros. No entanto, ele inaugura um novo capítulo na história do memorialismo. Qual é, segundo sua visão, a principal contribuição que Nava deu ao gênero?

Os recursos, que tentei descrever acima, são, a meu ver, a grande contribuição de Pedro Nava ao antigo modelo realista de que o gênero das memórias se revestiam entre nós. E em parte são eles que Antonio Candido observou ao aproximar a força inventiva do Baú de Ossos à magia verbal das memórias de Murilo Mendes n'A Idade do Serrote. São esses recursos que encontramos no arcabouço das análises de um crítico como Davi Arrigucci Jr. ou nos estudos do ensaísta Joaquim Alves de Aguiar. 

Há uma certa irregularidade nos volumes que integram as Memórias de Nava. Quais os volumes o senhor considera os mais notáveis?

Difícil dizer quais os volumes mais notáveis, mas, pessoalmente, fico com Baú de Ossos, Galo das Trevas e O Círio Perfeito

Embora se trate de uma narrativa autobiográfica, o conjunto desses volumes de memórias segue uma longa tradição de literatura confessional, principalmente a francesa, considerando a intimidade de Nava com a língua. Qual o autor que o senhor identifica como o inspirador do estilo das memórias do escritor mineiro?

Mais do que incorporar, Nava reconfigurou o gênero das memórias, ao acrescentar ao relato dessas lembranças não mais um exercício de contar o que foi, mas uma transformação desse contar numa experiência narrativa que oblitera as temporalidades do vivido através dos recursos mais finos e complexos que o autor - ele próprio um narrador inigualável - colheu nas melhores fontes da narrativa ocidental, Proust à frente, mas também Joyce, Eça de Queirós, Mário de Andrade e Anatole France, entre outros.

O talento de bricoleur, de artesão que mexe com as memórias como um pintor cubista, foi destacado pelo crítico e professor Davi Arrigucci num texto de 1987 aproveitado como posfácio de Baú de Ossos. Em que escola literária o senhor incluiria Nava, levando em conta esse gosto pela fragmentação?

Tudo isso faz de Pedro Nava um autor acima das limitações classificatórias de qualquer "escola" ou movimento. Para quem leu o maciço de suas memórias, o alcance dos pastichos e das alusões, como em Marcel Proust, por exemplo, muitas vezes move densos entrechos em que temos a oportunidade de conviver com o realista mais obstinado, com o naturalista dos mais desbocados e crus, quando não licencioso. Mas também com o eu lírico em franjas de lembranças e sugestões amorosas, dignas dos nossos melhores românticos. Isto para não mencionar o modernista da primeira hora, amigo de Mário de Andrade, de Drummond, de Emílio Moura, de Manuel Bandeira, que o eternizou na troupe dos nossos poetas bissextos com o magistral poema O Defunto. E que dizer do narrador que transpõe os verbos simultâneos; que elimina as vírgulas; que cria palavras ou as mutila; que puxa o dêitico da pergunta deslocando livremente o sinal de interrogação ou de admiração; que, enfim, desfaz no fluxo do relato as fronteiras entre o poema e a crônica, entre o ensaio e o relato-flagrante, entre o conto e a piada, misturando ao texto científico o jargão da experiência múltipla, de estudante, de jovem médico, de escritor, de homem da rua, do flâneur e do homem de gabinete?

Paulo Mendes Campos definiu os memorialistas como pessoas que não têm muita coisa para contar, lembrando que Nava constitui uma exceção por ter em mãos um material biográfico "ressequido" com o qual criou obras-primas. Qual o tema que o senhor considera pouco explorado em suas memórias?

Sob esse aspecto, penso que muita coisa está ainda por estudar no legado literário de Pedro Nava. Uma delas é a sua fina extração decadentista, visível por exemplo na cena memorável do autodiagnóstico, em que o autor, diante do espelho, auscultando o peito, examinando os olhos, apalpando o abdome, se pergunta por onde a morte penetrará em seu corpo (justamente ele que não teve paciência de esperá-la). Ou na cena em que, sozinho, noite avançada, se senta à mesa grande da sala e nela revê, sentados, cada um em seu lugar, os amigos mortos que o vêm visitá-lo vestidos com o que sobrou de seus despojos no caixão, como se saíssem do cemitério para uma reunião de saudade e lembrança no silêncio daquele cômodo: os rostos sujos de cal, as roupas impregnadas dos humores do sepulcro. E também no episódio do seu plantão de jovem médico, que substitui um colega no necrotério de Belo Horizonte, numa agitada noite de uma das revolução da década de 1920.  Aqui Nava se liga à melhor tradição dos personagens de Gastão Cruls, do João do Rio obcecado por morféticos e viciados, mas também de Cornélio Pena e até mesmo de certo Lúcio Cardoso.

Mais conteúdo sobre:
Pedro NavaSabáticoArnoni Prado

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.