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A exatidão como problema

Lembre-se, disse o dr. Bastos de Paula, um contador que se via como matemático, você tem que ser preciso: só há uma resposta!

Roberto Damatta, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2013 | 02h13

Fiquei cismado. Naquela noite, comemorávamos mais uma vitória política (o nosso principal inimigo havia dito uma tolice) e, embora eu tivesse tomado muitas cuias de cauim, nem a animação dos radicais me distraiam, confessou Antenor Barbado, um etnólogo que voltava de uma longa viagem de pesquisa com a tribo dos kongrás e estava tão magro que parecia um tísico.

Todos sabemos, antropólogos ou não - prosseguiu -, como a "vida" é complexa. Basta uma hesitação e tudo vai por água abaixo. Ao contrário do dr. Bastos, eu fico muito perturbado quando encontro um problema que só admite uma solução. Por exemplo: o papa renunciou. Como admitir que isso resolve? Agora a Igreja vai ter dois papas. Vai que o renunciante decide palpitar... Olha o tamanho da escrita! A vida não é receita, embora não exista sem ela. Quem sabe para onde seguimos? Como ter exatidão se esse eterno presente, que vai virando passado e traz no seu ventre o futuro, cega mais do que o sol? Tudo ou nada? Esquece, Bastos!

Mário Batalha, que era um velho, entrou na conversa e falou que três amigos, cujas mulheres sofriam do mal de Alzheimer, fundaram um Clube do Limbo. Um clube dos merdas! Enfatizou um tanto bêbado porque ninguém era mais delicado do que Mário Batalha, um general de artilharia jubilado sempre armado de pistola que tinha dificuldade em segurar sua cuia, porque uma de suas mãos era um gancho eletrônico - uma i-hand - de aço inoxidável.

Limbo?, perguntaram os amigos em conjunto.

Sim, o limbo onde vivem os viúvos de esposas vivas - disse passando mão pelo cabo negro da pistola que saía indiscretamente da sua cintura. Após o gesto, explicou: É arrepiador ficar neste não espaço angustiante dos que estão e não são. Neste poço sem esperança. Espaço revelador, ao contrário do que diz o dr. Bastos, que tudo tem muitas respostas. E aí há uma charada. Se só há uma resposta possível em alguns lugares, por que em outros essa nitidez desaparece e dois mais dois não fazem quatro?

Contou em seguida um sonho de um desses membros do Clube do Limbo.

Ele sonhou, disse Mário Batalha, que estava com a doente numa festa de família em Tóquio, vejam vocês, mas sua esposa fugia, como de fato ocorreu algumas vezes durante a doença. Só que no sonho ela escapou. Saí angustiado, prosseguiu Mário, dando voz ao sonho do amigo, à sua procura. Notei, porém, que ninguém se preocupava. Fui encontrá-la numa piscina aos beijos com um jovem japonês. Ela sorria um sorriso sem brilho como o que tem hoje para mim. Senti o velho ciúme misturado a um enorme mal-estar. Minha angústia vinha do fato de saber que tudo aquilo ocorria por causa da doença. Mas voltamos para a festa. No sonho, ela usava um vestido muito bonito e vaporoso. Mal chegamos, ela escapou novamente. Agora por mais tempo, porque eu a procurava alucinadamente pelas ruas de Tóquio com a mesma sensação que tive quando recebi a notícia da morte súbita do meu filho. Fui encontrá-la na casa de um político muito rico. Estava obviamente apaixonada e eu, calmamente, como ocorre nos sonhos, perguntei se sua experiência havia sido boa. Ela respondeu que sim. A inocência não vinha do seu ato, mas novamente do mal que a dominava. Entramos novamente na casa e eu tomei uma medida prática.

A essa altura, Mário Batalha tomou um largo gole de cauim e olhou dentro dos olhos de cada um dos seus amigos. Eu queria amarrá-la ao meu braço com uma corda, pois assim ela não fugiria mais - continuou. Pedi ajuda aos meus parentes que estavam na festa, mas eles não me ouviam. Simplesmente sorriam, gozando do festejo. No fundo, pensava eu no sonho, eles parecem felizes. A festa, como a doença, promove o esquecimento. Continuei procurando e comecei a soluçar, sentindo um profundo abandono. Era a primeira vez que eu me permitia chorar por mim mesmo com aquela intensidade. Acordei assustado. Estava na minha cama e tudo estava bem. Não havia nenhuma fuga, mas só a doença e a casa de repouso onde ela jazia internada que eu havia pago no dia anterior. Era um mero sonho.

Vejam, concluiu Mário Batalha, se o sonho é a realização de um desejo, temos muitas incertezas e interpretações - como distingui-las?

Mas a principal delas - articulei eu que ouvia tudo por meio da minha mediunidade literária - era a expressão do sofrimento causado pela doença que separou o homem da mulher. Todas as pessoas normais têm a corda que apaga porque permite o afastamento da lembrança de certos eventos, mas é com essa mesma corda que elas trazem de volta os fatos que vêm do futuro para este presente que logo vira passado. Mas no sonho desse homem não havia corda. O sonhador era obrigado a admitir a perda e isso o angustiava. É, falou o dr. Bastos, afora algumas matemáticas (e olha que elas são muitas), vocês têm razão. A exatidão é um problema.

Naquele noite, eu me senti mais vivo do que nunca. Minha memória dessa conversa estava intacta. Jamais fiquei tão feliz por me lembrar de tudo.

Peguei o jornal, li sobre a renúncia do papa, o bate-boca entre FH e Dilma, os palpites inevitáveis do Lula-Lincoln e o incrível tombo da moça que ganhou o Oscar...

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