A evolução que ainda preserva o tradicional

Os elementos que se misturaram para o surgimento da música popular urbana, ao longo do século 19, foram basicamente os mesmos, em diferentes lugares. Danças vindas da Europa, especialmente a polca e a habanera, o sotaque musical de cada colonizador e as influências rítmicas trazidas da África. Se compararmos o choro, a beguine da Martinica, o danzon de Santiago de Cuba e o ragtime norte-americano, veremos que tudo veio da polca, mas salta aos olhos o fato de o choro ter atingido um grau muito mais elevado de elaboração. E por que isso teria acontecido?

Henrique Cazes, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2011 | 00h00

Primeiramente, devemos creditar nossos pioneiros, músicos como Joaquim Callado, Ernesto Nazareth, Anacleto de Medeiros e Chiquinha Gonzaga, dentre outros, que exerceram forte liderança, cada qual em um front do choro, estabelecendo um alto padrão decomposição que dura até hoje. Não foi à toa que músicos como Carlos Gomes e Villa-Lobos viram em Anacleto e Nazareth a expressão de nossa identidade musical.

A geração de Pixinguinha, Candinho e Bonfiglio de Oliveira deu forma definida ao choro, fazendo com que esse termo significasse também um gênero musical. E o mais interessante é que, mesmo depois de um estilista genial como Pixinguinha, o choro não parou de experimentar. Radamés Gnattali e Garoto trouxeram informações do jazz e do clássico. Severino Araújo traduziu a big band enquanto K-Ximbinho e Paulo Moura aprofundaram o namoro entre choro e jazz. A musicalidade chorística espalhou-se, levada pelas ondas do rádio e por meio de grandes solistas, dos quais ainda temos Zé Menezes e Altamiro Carrilho.

Nos momentos mais difíceis, após a morte de lideranças como Jacob de Bandolim (1969) e Pixinguinha (1973), o choro encontrou meios de reagir, atraindo novas gerações. A minha, que entrou na roda em meados da década de 1970, investiu na codificação e na transmissão organizada do conhecimento relativo ao assunto e o choro foi a escola.

Enquanto mais e mais jovens começam a tocar choro pelo Brasil, já temos alguns exemplos de bons intérpretes estrangeiros, como o bandolinista japonês Oh Akioka e a clarinetista israelense Anat Cohen. Na primeira década do século 21, pudemos observar o brilho de uma nova geração, capitaneada por Hamilton de Holanda e Yamandu Costa, virtuoses que procuram equilibrar tradição e experimentação. Fazendo um balanço global e ouvindo o repertório de uma roda de choro de hoje em dia, chego a conclusão de que nos desenvolvemos em um modelo evolutivo acumulativo. Cada nova proposta que chega não descarta alguma prática do passado. Às vezes, a grande novidade que um solista lança na roda é o balanço de uma polca amolecida do século 19.

Esse rico universo, em que cabem tradicionalismo e experimentação, amadorismo e profissionalismo, competição e solidariedade, improvisação e rigor formal, pulsa ao compasso da paixão: um dialeto musical vivo.

HENRIQUE CAZES É CAVAQUINISTA, COMPOSITOR E AUTOR DE CHORO - DO QUINTAL AO MUNICIPAL

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