A eternidade sem Inferno

Para onde vamos, agora que, segundo o papa, o Inferno não existe?

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

03 Abril 2018 | 02h00

Longe de mim a pretensão de ser profeta, em minha terra ou qualquer outra, mas o fato é que, faz alguns anos, publiquei uma coletânea de crônicas intitulada Esse Inferno vai acabar. Claro que (ainda) me lembro disso, mas juro que não tinha ligado coisa com coisa até que, dias atrás, o amigo e livreiro Ricardo acendesse a luzinha, ao postar a capa do livro em minha página no Facebook: “Antes do papa você já sabia...”, brincou ele.

O assunto, naquele picadeiro eletrônico, era o fim do Inferno - que, a rigor, não acabou, nem poderia, pela simples razão de que jamais existiu. E quem disse não foi um papalvo como este cronista, mas ninguém menos que Sua Santidade o papa Francisco, em recente entrevista ao jornal italiano La Repubblica. Na minha minusculidade, limitei-me a lançar no papel, em 2011, irresponsáveis linhas que peço licença para reprisar aqui:

“Não será surpresa para mim se dia desses o Vaticano anunciar o que tanta gente desconfia: que o Inferno não existe. Há quem diga que existe, e até funciona aqui perto de casa em dia de jogo do Corinthians. Não duvido. Mas me refiro à matriz, ao inferno propriamente dito, mobiliado com caldeirões de água pelando e animado por diabos magros (alguém já viu diabo gordo?) e espevitados, com chifres de bode e rabos em forma de seta, tridente em riste para espetar a carne fraca dos ímpios. Pois vai acabar, se é que algum dia existiu. Se não anunciaram ainda, é para isto aqui em cima não virar um pandemônio”.

E por que o Inferno não acabaria? Precedente era o que não faltava: pouco tempo antes, sob o báculo conservador de Bento 16, a Santa Sé nos comunicara, sem mais aquela, que o Limbo, até então destino das alminhas das crianças mortas sem batismo, era pura ficção. Faltou, aliás, informar o que foi feito dos antigos habitantes, subitamente relegados à condição de sem-limbo. No caso presente, aliás, ainda não sabemos que destino terá o mais recente desempregado na praça, o barqueiro Caronte, a quem, diz a mitologia grega, cabia comandar a Barca do Inferno. Para não falar no capo, ele mesmo, o Demo, a partir de agora um sem-trevas.

Sem a mais remota ideia do que será feito de minha pobre e pecadora alma, se antes disso não se declarar a inexistência também das almas, tudo o que fiz foi desfraldar no Facebook a minha perplexidade: “Se o Inferno não existe, gente, para onde vamos?” 

Sinal de que não sou o único às voltas com tão grave questão, duas centenas e meia de amigos virtuais, não necessariamente virtuosos, se manifestaram, tendo vários deles registrado comentários e sugestões.

A Suzana e a Ana Maria, por exemplo, indagaram se, na falta de Inferno, não seria o caso de embarcarmos, como no velho samba, rumo a Maracangalha. Também a Lilly se mostrou propensa a balançar as cadeiras, só que no embalo de Vinicius e Toquinho, em direção à tonga da mironga do kabuletê.

Bandeirianos bandeirosos, o Tonico e a Marielza prefeririam tocar para a Pasárgada do poeta. O Ricardo, não o citado livreiro, mas não menos livresco, recusou-se a aceitar a hipótese de que não haja Inferno: não só iremos para lá, como nos sentiremos em casa! A Terezinha e o Alexandre manifestaram a preocupação de que, sem estrutura para acolher miríades de almas antes condenadas às chamas eternas, o Céu se converta em território pouco ou nada paradisíaco. Nem por isso se identificam os dois com o pessoal que, tempos atrás, torceu empinados narizes ante o que lhe pareceu ser a conversão de aeroportos em rodoviárias.

Cássia gostou da novidade vaticana: sem o risco de ardermos no fogo do Inferno, podemos pecar à vontade! Mas o Denis ficou contrariado: é típico, resmungou o moço, sempre fecham as coisas justo quando está chegando a minha vez... 

Previsivelmente, são muitos os compatriotas - entre eles, o Antônio, a Jurema, a Zinah e a Denise - convencidos de que pouca diferença fará, visto que, Inferno por Inferno, já estamos nele. Vocês não percebem que aqui mesmo faz um calorão?, indagou o poeta Felipe. Quanto a Beatriz, qual raposa ante as uvas verdes, reagiu com desdém: eu não queria mesmo ir pra lá... Já a Maúde pareceu conformar-se com a alternativa: só nos resta o Paraíso...

Onde quer que esteja, Jean-Paul Sartre houve por bem ou mal não se pronunciar sobre a questão, mas seus leitores sabem que olharia duplamente torto para os que visse empenhados no vulgar debate: pouco importa o lugar, diria ele entre duas cachimbadas, de vez que “o Inferno são os outros”.

Escritor fino assessoriamente provido de um diploma de bacharel em direito, o cético e sábio Jaime Prado Gouvêa sabe a saída que lhe resta ante a notícia de que não há Inferno: recorrer ao Supremo. Qual deles?, pergunto - e o que ouço vale transcrição: 

“Terminada minha jornada de patifarias na Terra, e na dúvida se serei ou não jogado ao fogo desse lugar sinistro, gostaria, antes de começar a pagar minha pena eterna, que o processo sobre meus pecados subisse, como apelação, para o STF do Juízo Final, onde, com alguma sorte, seria distribuído para os ministros da 2.ª Turma, que, como é de praxe, ou me absolveriam ou me apenariam com a remissão das minhas culpas no meu inferno domiciliar, aqui mesmo em casa, talvez até sem tornozeleira.”

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