A eterna surpresa de Tosca

Puccini investiu sua obra com todos os elementos para 'sobressaltar emocionalmente' o espectador

João Marcos Coelho, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2010 | 00h00

Vinte e um anos depois, o barítono Rodrigo Esteves e o diretor cênico Fernando Bicudo voltam a encontrar-se, na montagem da Tosca, de Puccini, que abre hoje à noite a temporada lírica do Teatro São Pedro. Em 1989, Esteves estreava no coro do projeto Ópera Brasil, de Bicudo, na montagem de Um Baile de Máscaras, de Verdi, no Teatro Municipal de São Paulo. De lá para cá, sua carreira se projetou internacionalmente. Ele faz o tenebroso Barão Scarpia, chefe de polícia que alicia a cantora Tosca (Ana Paula Brunkow), ameaçando torturar seu amante, o pintor Mario Cavaradossi (vivido pelo ótimo Rubens Medina). A direção de cena é de Bicudo e os figurinos são de Claudinei Hidalgo. Participam o Coral Lírico Cia. de Ópera, preparado por Dalete Alécio. Como a orquestra permanente do teatro só estreará na próxima montagem deste ano, foi convocada para a Tosca a Orquestra Sinfônica da USP, regida por Ligia Amadio.

Puccini seguiu à risca a regrinha de que é preciso "sobressaltar emocionalmente o espectador". Para isso, ele usa um afiadíssimo senso teatral, timing e um dom melódico conciso que aflora com destaque na trinca Manon Lescaut, La Bohème e Tosca. Ele exibe um saldo inalcançável por qualquer outro compositor lírico: 10 de suas 12 óperas frequentam com assiduidade as temporadas líricas no mundo inteiro. E as três citadas pulsam no inconsciente coletivo e permanecem entre as mais encenadas e gravadas. Mosco Carner, seu biógrafo, assinala que suas óperas jamais são "aborrecidas ou prolixas". E aí está seu segredo, que torna a Tosca eletrizante para o público. Em Puccini, o aparato cênico combina-se com os cantores e a orquestra visando a conquistar o máximo de efeito dramático. "Tenho mais coração do que cérebro", costumava dizer.

Impulso. Por isso, provavelmente a responsabilidade maior fica a cargo do maestro. No caso, a maestrina Ligia Amadio, que, em conversa com o Estado, ressalta a qualidade da escrita orquestral: "Não há dois compassos iguais na Tosca. A cada momento é necessária uma respiração nova, um novo impulso dramático e lírico. Os tempos mudam, os timbres variam completamente. Ele toma mesmo de sobressalto o espectador."

É a primeira vez que Ligia rege esta ópera. E encanta-se com muitos momentos líricos. Como, por exemplo, "quando Puccini usa um quarteto de violoncelos e uma viola no terceiro ato, um pouco antes da célebre ária "E Lucevan le Stelle". É um momento mágico, em que cada violoncelista é solista, cada um tem uma voz diferente. Ou então o apavorante tema de Scarpia, no início do primeiro ato, combinando os metais, alguns no extremo grave contra outros no extremo agudo". Além disso, a Tosca oferece uma penca de árias que levam ao delírio plateias de todo o mundo há pouco mais de um século: Recondita armonia, Vissi d"Arte, Vissi d"Amore e a citada E Lucevan le Stelle.

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