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A eterna presença de Henrietta

Livro resgata caso da mulher que, sem saber, deu origem à linhagem celular mais usada em pesquisas científicas

Raquel Cozer - O Estado de S.Paulo,

22 Março 2011 | 06h00

Depois de morrer, Henrietta Lacks percorreu o mundo e alterou os rumos da humanidade. Essa poderia ser, de forma bem resumida, a descrição da história real narrada em A Vida Imortal de Henrietta Lacks, livro de estreia de Rebecca Skloot. E, se causa estranheza, isso não chega perto da sensação que o leitor tem ao atravessar as cerca de 450 páginas resultantes de mais de dez anos de pesquisas da jornalista científica norte-americana.

 

Considerado um dos dez melhores títulos de 2010 por veículos como o New York Times, o Independent e mais algumas dezenas de publicações, a obra que sai agora pela Companhia das Letras destrincha a história por trás das primeiras células humanas mantidas vivas por cientistas fora do organismo, e que assim se mantêm há 60 anos - mais precisamente, as primeiras células imortais da história.

 

São as chamadas células HeLa (lê-se "rilá"), linhagem celular mais usada em pesquisas no mundo, conhecidíssimas entre pesquisadores da área biológica. O que ocorreu a Rebecca Skloot ainda na adolescência, ao ouvir falar pela primeira vez nessas células, foi um "detalhe" ao qual quase ninguém parecia dar muita atenção: por trás daquele objeto de infindáveis investigações houve uma vida que merecia ser reconhecida.

 

Essa vida, ouviu Rebecca do professor que lhe contou a história no colégio, foi a de Henrietta Lacks, uma ex-lavradora de tabaco no sul dos EUA, descendente de escravos, que morrera com câncer em 1951. "Naquela mesma época", conta a autora em entrevista por telefone ao Estado, "meu pai foi infectado por um vírus que lhe causou danos cerebrais e aceitou ser cobaia de uma pesquisa científica. Então, quando eu soube da existência de Henrietta Lacks, minha primeira curiosidade foi: ela teve filhos? Como eles se sentem em relação a tudo isso?"

 

O que ela descobriu foi que Henrietta nunca soube que haviam retirado uma amostra de suas células enquanto estava internada na enfermaria para "pessoas de cor" do Hospital John Hopkins, em Baltimore, Maryland - e que, quando sua identidade veio à tona, décadas depois, seus filhos teriam suas vidas invadidas por interesses científicos e jornalísticos.

 

Câncer. Aos 30 anos, mãe de cinco filhos, Henrietta chegara ao hospital alegando sentir um caroço na altura do útero, uma dor que escondia do marido e das crianças. Os médicos logo identificaram um tumor cervical e, sem pedir permissão, enviaram uma amostra das células cancerígenas a um pesquisador. Meses depois, Henrietta morreu tomada por tumores, embora os exames identificassem o controle da doença. O que ninguém esperava era que essas células, ao contrário de todas as outras usadas antes em pesquisas, eram capazes de se expandir sem limites. Essa inexplicável capacidade de sobreviver e se multiplicar fora do organismo tornou as células famosas no meio científico.

 

Ao longo das décadas, as células de Henrietta foram enviadas para laboratórios de todo o mundo, usadas em testes nucleares, enviadas para o espaço; tornaram-se fundamentais para as pesquisas mais importantes relacionadas a vacinas, quimioterapia, clonagem, mapeamento de genes, fertilização in vitro. A multiplicação foi tão impressionante que, como escreve Rebecca, "se fosse possível enfileirar todas as células HeLa já cultivadas, elas dariam ao menos três voltas ao redor da Terra, totalizando mais de 100 milhões de metros".

 

Os filhos foram localizados décadas depois da morte de Henrietta por estudiosos interessados em seu DNA - também sem o consentimento deles, que acreditavam estar apenas passando por exames para descobrir se não tinham o mesmo câncer da mãe - e expostos em reportagens e documentários, além de atrair a atenção de gente interessada em ganhar dinheiro em cima deles. Começaram a acreditar numa espécie de maldição envolvendo as células, que só lhes traziam desgostos.

 

Rebecca Skloot demorou mais de um ano até convencer Deborah, a filha de Henrietta mais engajada em recuperar a história da mãe, a dar entrevistas. Enquanto isso não acontecia, conversou com o marido e os outros filhos, vasculhou milhares de estudos científicos ("pesquisar sobre as células HeLa em bancos de dados científicos é como fazer uma busca pela palavra "e" no Google", compara), esmiuçou outros casos de pesquisas feitas sem consentimento dos pacientes e as lacunas da legislação.

 

Descobriu, entre outras coisas, que uma das filhas de Henrietta morreu internada numa instituição mental para negros, também cobaia involuntária de estudos medicinais. "Era um lugar onde os negros não eram bem tratados, como se pode imaginar de uma instituição assim por volta dos anos 50. Fiquei impressionada com os contornos soturnos disso tudo e entendi porque os filhos tinham tanta reticência em dar entrevistas. Essa história diz muito sobre a situação dos negros norte-americanos no século passado."

 

O maior mérito de A Vida Imortal de Henrietta Lacks, para além do exaustivo trabalho investigativo, é tornar humana uma história que, em mãos menos cuidadosas, poderia caber num compêndio científico. "Queria que parecesse ficção, mas com dados reais", conta a autora, que recorreu a diversos romances e filmes para encontrar o tom certo do texto, uma narrativa que intercala a biografia do Lacks com intrincadas questões sociais e científicas - e que, não à toa, está sendo transformado em filme pela produtora de Oprah Winfrey.

 

ENTREVISTA

 

 

Rebecca Skloot

JORNALISTA CIENTÍFICA, AUTORA DE A VIDA IMORTAL DE HENRIETTA LACKS

 

‘Li ficções para escrever o livro’

 

A obra inclui uma pesquisa biográfica e quase um estudo científico, são duas histórias que se cruzam. Como organizou isso?

 

Foi um desafio colocar aquele tanto de informações sem deixar confuso. Precisava contar as duas histórias ao mesmo tempo porque era importante que o leitor entendesse a parte científica ao mesmo tempo em que conhecesse o lado humano. E queria que o livro fosse lido como ficção, então li muitos romances estruturados assim.

 

Que tipo de romances?

 

Um dos que mais ajudaram foi Tomates Verdes Fritos, de Fannie Flagg, que tem três narrativas ao mesmo tempo. E Love Medicine, de Louise Erdrich, e As Horas, de Michael Cunningham. Entre os filmes, o que mais ajudou foi O Furacão, com Denzel Washington. Tomei o cuidado de, como no filme, fazer os capítulos correrem rapidamente para que a história não se perdesse.

 

O livro vai virar filme?

 

Sim, está sendo transformado em filme por Oprah Winfrey e Alan Ball para a HBO. Sou consultora de roteiro, assim como a família de Henrietta. / R.C.

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