A eterna obsessão de Werner Herzog

O aspecto tranquilo, a voz mansa, o olhar longínquo escondem a verdadeira persona do cineasta alemão Werner Herzog - para ele, o cinema é movido a obsessão. Filmes, segundo ele, necessitam ter uma execução suada para serem devidamente valorizados. Foi o que o moveu quando dirigiu Aguirre - A Cólera dos Deuses e, principalmente, Fitzcarraldo, no interior da selva amazônica, filmes que exigiram uma atípica mistura de esforço físico e criatividade para resultar em verdadeiras obras-primas.

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2011 | 00h00

O mesmo se pode dizer de seus documentários, que serão exibidos a partir de hoje no Instituto Goethe, que também programou filmes sobre o cineasta alemão. O próprio Herzog estará presente, a partir das 19 horas, para comentar com o público sobre esse aspecto de sua carreira - a conversa será mediada pelo jornalista Eduardo Simões. Em seguida, será exibida a primeira parte de Sou o Que São Meus Filmes, documentário de Christian Weisenborn e Erwin Keusch e que compreende a fase entre 1976 e 78.

Até sábado, serão exibidos 20 longas, produzidos entre 1965 e 2005 e divididos em cinco temáticas: Sobre Werner Herzog, Criação e Apocalipse, O Início e o Fim da Linguagem, Guerreiro e Perpetrador, Decolagem e Queda. Com exceção de Fata Morgana, habitual frequentador de mostras relativas ao trabalho do alemão, a programação traz pequenas joias. Como O Grande Êxtase do Entalhador Steiner, de 1974, um retrato do campeão mundial e recordista de saltos de esqui, Walter Steiner; na verdade, um herói legitimamente herzoguiano: obcecado, solitário, sempre desafiando os próprios limites.

"Herzog sempre desafiou fronteiras, geográficas e estéticas. Ficção e documentário sempre conviveram em sua obra, com a ênfase oscilando de um polo a outro", comentou o crítico Amir Labaki quando, em 2007, o festival É Tudo Verdade apresentou uma retrospectiva do alemão.

Os filmes que serão exibidos no Goethe oferecem um perfil quase completo de um artista tão complexo, mas a programação sairia recompensada se também contasse com O Peso dos Sonhos, de Les Blank - ele acompanhou a rodagem de Fitzcarraldo, que mostra um homem obcecado pelo sonho de erguer um teatro no meio da floresta amazônica e levar a ópera de Caruso para as populações locais. Um enorme barco foi construído pela produção e por índios amazônicos, que assumiram a faraônica missão de levá-lo rio acima, no Amazonas. A câmera atenta de Les Blank acompanhou todos os detalhes, inclusive a rebelião dos moradores locais quando um deles morreu no trabalho.

Hoje fixado em Los Angeles, Herzog continua perseguido por dúvidas cuja solução exige sacrifícios mas oferece autênticos relatos humanos.

WERNER HERZOG: SOU O QUE SÃO MEUS FILMES

Goethe-Institut São Paulo. Rua Lisboa, 974, tel. 3296-7000. Hoje a sábado, vários horários. Grátis.

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