A estreia erudita de Moran

O pianista de jazz Jason Moran completará 40 anos no dia 21. Gravou com seu trio o CD Ten em 2010, um dos melhores do ano. Mas ele tem um outro lado que pouca gente conhece. Também compõe música clássica. Sua estreia erudita também foi em 2010: o quinteto de sopros nova-iorquino Imani Winds encomendou-lhe uma peça para a formação flauta-oboé-clarineta-trompa e fagote. Ele trabalhou diretamente com o grupo, formado desde 1997 por quatro mulheres e um homem, todos "afro-americanos", como eles gostam de se qualificar. O trompista Jeff Scott contracena com Valerie Coleman na flauta, Toyin Spellman Diaz no oboé, Mariam Adam na clarineta e Monica Ellis no fagote.

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2011 | 00h00

Moran participou dezenas de vezes dos ensaios do grupo em Manhattan; modificou trechos que não funcionavam na prática, acrescentou outros em função do que compartilhou com eles. O resultado é uma bela suíte em quatro movimentos intitulada Cane, de caráter autobiográfico.

Moran conta a história de sua família desde Marie-Therese Coin-Coin (1742-1816). Nascida no Togo, foi levada como escrava para os EUA, onde trabalhou e viveu na pequena cidade de Natchitoches, no Estado da Louisiana. Teve dez filhos com seu "dono". Jason Moran é um dos muitos afro-americanos que se consideram descendentes dessa penca de filhos de Marie Therese. As informações, dadas pelo crítico Howard Mandel no folheto interno do CD, dão conta de que Moran imaginou toda a saga dos afro-americanos nos EUA desde Marie-Therese até a atualidade. São 15 minutos de música emocionante que retrata os horrores da viagem da África para os EUA (Togo to Natchitoches); a vida difícil de escrava (Coin-Coin"s Narrative); seu grande feito, de ter fundado St. Augustine Parisch, a primeira igreja para os negros na Louisiana (Gens Libre de Couleur); e o final extrovertido em que Jason retrata a liberdade (Natchitoches to New York).

De estrutura musicalmente simples e tonal, sua música encanta pela espontaneidade e o talento de tecer interessantes contrapontos entre instrumentos de timbres bastante diversos - isto, aliás, é o que constrói a graça dos quintetos de sopro.

Outro grande jazzista moderno, o saxofonista Wayne Shorter, também debuta neste CD como compositor "clássico". Shorter participou do lendário quinteto acústico de Miles Davis nos anos 60 e foi uma das estrelas, na década seguinte, do pioneiro grupo de jazz-rock Weather Report - e, desde Native Dancer, de 1974, com Milton Nascimento, é seu fã confesso. Só que Shorter já levou pronta a partitura de Terra Incógnita, obra que dá título ao CD do Imani Winds lançado em novembro pelo selo E1 Music. Com um detalhe importante: sem nenhuma marcação de dinâmica (prática comum entre os compositores barrocos, Bach à frente). E recomendou ao quinteto para jamais repetir a mesma dinâmica a cada execução da peça. Um desafio e tanto. Em seus 15 minutos, a peça soa muito bem estruturada, embora a suíte de Moran provoque um impacto sonoro maior. Assista a uma versão de 9 minutos de Terra Incógnita no YouTube e também a alguns movimentos de Cane.

As duas peças finais contam com a participação do clarinetista cubano Paquito D"Rivera e Alex Brown ao piano. O quinteto gravou, cinco anos atrás, no CD Classical Underground, a suíte Aires Tropicales de Paquito, outro velho conhecido e apaixonado pela música brasileira. Kites Over Havana e Wind Chimes incluem alguns versos recitados e constituem música de excelente qualidade - só que de caráter inteiramente diverso das obras anteriores de Moran e Shorter, pois a clarineta de Paquito domina o discurso de modo excessivo.

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