A estreia de Rushdie

Muitos achavam impossível levar livro às telas, mas autor cria o roteiro e filme entra em cartaz no dia 26

IAN SPELLING, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2013 | 02h12

O aclamado livro de Salman Rushdie Midnight's Children (Os Filhos da Meia-Noite), de 1981, era considerado impossível de ser adaptado para o cinema. Mas, finalmente, recebeu uma versão cinematográfica, por cortesia do próprio Rushdie, que escreveu o roteiro e empresta a sua voz ao protagonista Saleem Sinai. O filme, dirigido por Deepa Mehta, entra em cartaz no dia 26 nos EUA.

A história, que vai de 1917 a 1977, fala de dois meninos, Saleem e Shiva, que são trocados ao nascer num hospital de Mumbai, em 15 de agosto de 1947, enquanto a Índia declara a sua independência da Grã-Bretanha. Suas existências, totalmente diferentes, acabam se cruzando nas três décadas seguintes, durante as transformações mais importantes da Índia.

Rushdie, de 65 anos - conhecido pelas várias sentenças de morte emitidas contra ele pelo aiatolá Khomeini do Irã, em resposta ao seu controvertido romance Versos Satânicos (1988) - falou por telefone do seu apartamento em Manhattan sobre Midnight's Children, entre outros assuntos.

O sr. se sentiu à vontade no mundo do cinema, em que diretor, atores, executivos trabalham em conjunto?

Gostei bastante de todo este processo e de que, finalmente, um livro meu tenha sido adaptado para o cinema. Descobri que num trabalho em colaboração com outras pessoas talvez me dê melhor do que imaginava.

Muitas pessoas achavam Midnight's Children impossível de ser adaptado.

Se foi possível adaptar Anna Karenina, seria possível fazer um filme com Midnight's Children. Há muitos exemplos de livros muito bons que se tornam filmes muito bons, como A Época da Inocência, do romance de Edith Wharton (1993), O Tambor, de Volker Schlöndorff, do livro de Gunter Grass (1979).

Como foi a elaboração do roteiro de Midnight's Children?

O roteirista deve ter uma profunda consciência do público. Ele precisa estar consciente de como contar a história de maneira que ela envolva o público e o mantenha envolvido. Não é uma lição complicada para o romancista aprender.

Como foi o seu relacionamento com a diretora Deepa Mehta?

Tínhamos ideias muito semelhantes. Acredito que isto inspirou uma confiança mútua. Sentimos que estávamos tentando fazer o mesmo filme. Eu confiei muito nela.

O filme cobre o período de 1917 a 1977. O romance foi lançado em 1981. Acha que a história ainda é atual?

Uma das coisas realmente interessantes nas exibições que teve até agora é que os jovens parecem interessados em vê-lo. É um fato encorajador, e todos eles dizem que ainda tem muito a ver com o mundo que eles conhecem. Portanto, mesmo que, de certo modo, seja um filme de época - a ação acaba em 1977 -, algumas coisas continuam sendo relevantes. Acho que o que ocorre é que no centro da trama há a história de uma família.

O senhor acha que os espectadores que leram o livro terão uma experiência diferente do que os demais ao ver o filme? Estes dois públicos vão sair satisfeitos do cinema?

A bem da verdade, não me importa quem vai vê-lo, desde que seja visto. É claro que espero que os fãs do livro queiram vê-lo e o considerem fiel à obra. Não pode ser uma transposição exata, mas espero que eles achem que preserva a essência e o espírito do livro. Estou muito interessado nas pessoas que nunca leram o livro, nunca ouviram falar nele e vão vê-lo. De certo modo, esta é uma experiência mais pura. Na realidade, gostaria que as pessoas fossem ao cinema, sentassem em sua poltrona, vissem o filme e, no final, dissessem: "Este é um bom filme". Seria ótimo para mim.

Gostaria de ser lembrado como escritor ou como roteirista?

Gostaria de ser lembrado pelos livros que escrevi e, agora, pelo filme que ajudei a realizar. A tempestade política que cercou um dos meus livros, além de perigosa, na minha opinião, desviou a atenção das pessoas, e impediu que algumas delas vissem o escritor no centro da tempestade. Só posso esperar que aquele tempo esteja bem distante.

Como foi a recepção a seu livro mais recente, Joseph Anton - Memórias.

Estou satisfeito com a recepção, tanto dos críticos quanto dos leitores. Sinceramente, era o que esperava que acontecesse. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.