A estranha mistura de piranha com jabuti

Peixe esquisito é mote para discutir o admirável mundo novo da informática

Crítica: Helena Katz, O Estado de S.Paulo

18 Dezembro 2010 | 00h00

Uma dramaturgia da migração. Dito assim, soa como tarefa para uma vida inteira - o que pode, eventualmente, acontecer. Mas, de imediato, para começar a desenhar tal dramaturgia, Wagner Schwartz, artista brasileiro que vive entre Uberlândia, São Paulo e Paris, propõe Piranha, pesquisa que apresentou no Rumos Dança 2010, do Itaú Cultural.

A escolha da piranha merece uma consideração. Peixe estranho já na sua aparência, que deixa ver mais dentes do que parecem lá caber quando abre a boca, e que morde muito muito rápido. Peixe que carrega o excesso no seu corpo pequeno e fino, seja no número de dentes, seja na quantidade de mordidas. Não tem aparência de peixe perigoso, mas, como consegue projetar sua mandíbula para a frente, seus dentes triangulares afiados arrancam grandes pedaços de carne a cada dentada. Nunca vive sozinha, e sempre desaparece em pouquíssimo tempo.

Modelo torto de uma combinação entre desajuste e ambivalência, é aqui oferecida como o avesso do avesso do avesso do avesso (Caetano Veloso, Sampa, 1978) de um fenômeno produzido pelo desenvolvimento técnico dos computadores e da internet: o da quantidade de informações a serem engolidas em velocidade sempre crescente. Não há tempo e tampouco necessidade de se deter em cada uma. Basta um contato instantâneo, um esbarrar ligeiro nas superfícies que promova alguma associação. Porque a avalanche não dá sossego e cobra atualização incessante. O enigma da esfinge mudou para "devora-me ou você se devora".

A Piranha de Wagner Schwartz demarca uma combinação entre esse admirável mundo novo e a nossa entrada na década do centenário do Manifesto Antropófago que Oswald de Andrade leu na casa de Mário de Andrade e publicou na Revista Antropofagia (1928). Lá, já falava em "imigrados, traficados e touristes" e dizia que "somos preguiçosos no mapa-múndi do Brasil". Agora, 92 anos depois, foi desenhada a imagem-símbolo do Manifesto Antropófago: é aquela com a qual Wagner Schwartz inicia o segundo momento do tríptico da Piranha, a de um corpo que se dobra tanto para trás que se transforma em um anzol. Sem frente, sem costas, sem lado.

O corpo-anzol inaugura o segundo trecho, mas é somente no terceiro que vamos compreender que se tratava também de um corpo-ponto-de-interrogação. Porque no terceiro, o genial trabalho gráfico de Mauricio Leonard vai esclarecer visualmente que anzol e ponto de interrogação se ligam na forma compartilhada pela inversão.

O tríptico se monta em torno da necessária reflexão sobre o papel das legendas no mundo das migrações, e oferece três oportunidades para se lidar com a relação palavra-imagem. Começa com a informação, em uma projeção que ocupa todo o palco, dizendo que o espetáculo se iniciará em 15 minutos. Emseguida, a luz da plateia é acesa e, aos poucos, uns começam a conversar, e outros, a ler o programa. Pronto, passamos a ser os produtores de legenda para aquela situação, lendo/despejando palavras e mais palavras no ambiente. Em exatamente 15 minutos, a luz se apaga. Wagner Schwartz entra e começa a legendar a piranha no seu corpo. Quinze minutos exatamente depois, sai, e ficamos com o trabalho de verdadeiro artífice gráfico de Leonard. Com os fazeres de poesia concreta, monta partituras, redes, espacializa materialmente a piranha com a interrogação-anzol.

Mas, como já está dito lá, na primeira imagem do corpo-anzol-interrogação, essa Piranha não pesca nem faz perguntas pra fora. Ela enovela as interrogações nelas mesmas, enrosca o anzol no anzol. E assim faz dessa Piranha a Revolução Caraíba que Oswald propunha no seu Manifesto, aquela que iria "unir todas as revoltas eficazes na direção do homem". Agora podemos largar o papel de índios cheios de bons sentimentos portugueses no qual os colonizadores desejam continuar a nos ver. Já temos a vacina antropofágica capaz de nos preparar para a caminhada no mundo das migrações: é a mistura de jabuti com piranha.

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