A estética do mínimo de Raymond Carver

Antologia 68 Contos consagra o norte-americano como o mestre das frases curtas, equilibradas entre a emoção e o rigor

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

11 Setembro 2010 | 00h00

Ao longo de sua carreira, o americano Raymond Carver (1938- 1988) cultivou cada vez mais certas palavras: as mais contidas. Autor de contos e poemas, ele se firmou como um escritor econômico, na mesma linha traçada pelo argentino Ricardo Piglia e pelo paranaense Dalton Trevisan. Ou seja, uma prosa cuja história encontra seu sentido através da forma. Mas, ao contrário daqueles, a obra de Carver continua pouco conhecida no Brasil, apesar da notoriedade conquistada pelo filme Short Cuts - Cenas da Vida, que Robert Altman dirigiu em 1983 a partir dos contos que ganharam edição nacional, no ano seguinte, pela Rocco, mesma editora que lançou antes Fique Quieta, Por Favor (1988). A reparação foi iniciada com o lançamento de Iniciantes, no ano passado, e agora com 68 Contos, ambos pela Companhia das Letras.

Trata-se da coletânea de grande parte dos contos de Carver, escritos entre 1960 e 1980. E, não bastasse reunir uma obra que normalmente só é encontrada dispersa em quase todos os países, o livro permite que o leitor conheça e participe da grande polêmica envolvendo o escritor americano, considerado um prodígio do conto: a presença marcante na elaboração do seu estilo do editor Gordon Lish justamente num dos mais importantes conjuntos de textos de Carver, Do Que Estamos Falando Quando Falamos de Amor.

Carver e Lish se conheceram em 1967. Até aquela data, o escritor sofrera muito para se manter na escrita. Pai de duas crianças antes mesmo de completar 20 anos, ele passou por diversos subempregos a fim de sustentar a família - foi zelador, faxineiro, frentista e entregador, entre outros ofícios. Por sorte, contava com uma mulher compreensiva, Maryann, que o ajudava a compor a renda, além de o incentivar a frequentar a universidade.

Lá Carver conheceu seu primeiro grande apoiador, um jovem professor chamado John Gardner, que logo se tornaria autor de famosos manuais para novos escritores. Foi a partir da orientação de Gardner que começou a criar suas primeiras histórias. "Com ele, Carver aprendeu a revisar incessantemente o que produzia, a estruturar suas narrativas, a escolher minuciosamente as palavras, a eliminar os excessos retóricos e, por fim, a analisar os significados mais profundos de suas histórias", observa o também escritor Rodrigo Lacerda, responsável pela alentada introdução de 68 Contos. Gardner ainda lhe apresentou dois dos pilares da literatura norte-americana: Ernest Hemingway e William Faulkner.

Foi durante esse período, entre 1957 e 1960, que o escritor solidificou a base do que seria sua carreira literária: ao mesmo tempo em que adotara um estilo de frases curtas, secas, distanciadas, nada heroicas, Carver praticamente especializou-se em pequenas narrativas, sobretudo no conto, por força do exíguo tempo que tinha para escrever.

Em 1960, matriculado em uma nova universidade, o escritor conheceu outro professor, Richard C. Day, que continuou o trabalho de polimento iniciado por Gardner. Lá, Carver fundaria uma revista, Selection, que publicaria seu primeiro conto, Estações Tempestuosas, que abre a coletânea editada pela Companhia das Letras. Percebe-se ali um autor disposto a experimentações, especialmente as baseadas no texto de Faulkner, isto é, repletas de descrições e liberdades na relação entre tempo e espaço. Revela também um ainda excessivo sentimentalismo, fruto da árdua tarefa de sustentar a família.

Curiosamente, enquanto o mercado na época festejava a literatura beat, cujos textos eram produzidos aos jorros conduzidos pela imaginação, Carver apoiava-se na forma clássica de se narrar - enredo, ação e personagem. Buscava trilhar o mesmo caminho de seu autor preferido, o russo Chekhov, cuja escrita tornava belo o corriqueiro. Até mesmo a visão conformista era semelhante, pois Carver procurava retratar o cotidiano, que considerava "a mais completa derrota do sonho americano".

Assim, foi alinhavando o estilo até que, com O Cabelo, sobre um jovem cuja identidade é ameaçada por uma irritação inicialmente inofensiva, ele se aproximou da forma que o tornaria conhecido. Era 1967, ano que desponta, portanto, como decisivo em sua carreira. Ao mesmo tempo em que arruma um emprego como editor de textos de livros didáticos da Califórnia, seu conto Você Poderia Ficar Quieta, Por Favor? é incluído na lista dos melhores da temporada nos Estados Unidos. É, ainda, o ano em que conhece Gordon Lish.

Colega na área dos didáticos, Lish era também seu vizinho em Palo Alto, na Califórnia. Quando ele assume a função de editor de ficção na revista Esquire, Carver toma coragem e submete uma de suas histórias, Vizinhos, à apreciação. "O incentivo descompromissado de Lish ao processo de amadurecimento e enxugamento pelo qual passavam os contos de Carver deu então lugar a uma parceria entre autor e editor, que viria a aprofundar esse mesmo processo", comenta Rodrigo Lacerda.

De fato, é criada uma relação simbiótica em que praticamente tudo o que Carver escrevia era submetido a Lish e seus conselhos transformavam o texto em algo mais lacônico, fazendo com que os críticos logo grudassem o rótulo de "minimalista" a qualquer prosa carverniana. Na verdade, as dicas só apressaram o desenvolvimento para um caminho que o autor já buscava, ainda que sob baixa velocidade. Como entendeu perfeitamente a organicidade da prosa de Carver, o crítico sabia exatamente onde poderia sugerir os cortes. A colaboração nos contos atingiu o auge com a publicação do livro Do Que Estamos Falando Quando Falamos de Amor, em 1981.

Carver ganhou da crítica a reputação de "mestre completo". Sua estética do mínimo era usada para contar histórias de personagens simples, que não conseguem entender o próprio drama. Ele atingia o mais alto grau da elaboração estilística. A parceria com Lish, no entanto, logo passou a incomodá-lo. Até que, sem jamais menosprezar o mérito do editor, Carver começou a diminuir a influência. Desejava também publicar seus textos originais, sem o crivo de Lish. Isso ocorreu apenas postumamente, com Iniciantes, lançado em 2001. Assim, é possível comparar, em alguns contos, sua versão com a proposta por Lish, que consta em 68 Contos. No original, Carver era mais sentimental e melancólico. Em ambas, porém, persiste o detalhe observado por Robert Altman: sua prosa revela o estranho oculto por trás do banal.

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