A essência está no canto

Há muitos depoimentos - alguns bons e mesmo excelentes - no documentário Elza, de Ernesto Baldan e Izabel Jaguaribe. Nenhum supera, em sabedoria, o de João de Aquino. Diz o violonista: "A verdade da Elza Soares está no canto dela. Não adianta dizer que ela é boazinha ou que não presta. Quem quiser entender a Elza tem que entender o canto dela". Perfeito. Não adianta entrevistar um cantor - é melhor ouvi-lo. Não adianta saber o que pensam os outros de determinado artista - é preciso vê-lo, ouvi-lo, senti-lo.

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2011 | 00h00

A consciência desse fato, e sua negação, fazem a força e a debilidade do documentário. Os diretores sabem que é meio inútil tentar decifrar o mistério Elza. E, no entanto, tentam fazê-lo, através de depoimentos de colegas, como Caetano Veloso e Maria Bethânia, e especialistas, como José Miguel Wisnik e Hermano Vianna. Ao mesmo tempo, deixam que ela "fale" por si mesma. Ou seja, deixam que cante. E que nos confronte com seu enigma. Quem é essa criatura que se apresenta na tela cantando Lama, diretamente para nós? De quem é esse rosto, esculpido pela vida e por mil plásticas? De onde vem essa voz, à beira do abismo em notas mais agudas, que se refugia no fundo da garganta e nos toca lá, naquela região, que, um pouco por pudor, chamamos de "fundo da alma"? Elza nunca está onde pensamos. É um milagre brasileiro, o da transmutação da miséria em ritmo e alegria. Não se explica.

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