À espera do futuro - ou do próprio fim

De volta à não ficção, Annie Proulx, autora de Brokeback Mountain, relata em novo livro a busca de um espaço só seu

Francisco Quinteiro Pires, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2011 | 00h00

O problema é adequar a realidade ao desejo. Annie Proulx escolheu acreditar anos atrás que iria construir a casa dos sonhos, o lugar onde ela ansiava passar os seus últimos dias. Em julho de 2003, ela achou um terreno remoto, cercado de natureza selvagem, em Saratoga, ao lado do North Platte River, no Wyoming. Registrou as dificuldades de criar o novo lar em Bird Cloud. Annie se percebeu frustrada ao fim da experiência.

Primeiro livro de não ficção de Annie Proulx em mais de 20 anos, Bird Cloud - A Memoir tem como epígrafe uma citação do explorador H.W. Tilman. Ela trata de um prato de salsichas vienenses, uma metáfora para a empreitada narrada no novo livro da ficcionista norte-americana. Segundo Tilman, o prato de Viena apresenta temperaturas opostas. Uma parte é gelada, a outra vem pelando. Bird Cloud é essa comida à base de salsichas. O volume de memórias mostra como os sonhos de Annie a acalentaram no início, com a inocência da nuvem em forma de pássaro que inspirou o nome da propriedade de 640 acres ao pé de uma montanha de cerca de 1,2 mil metros. E finaliza com uma mulher de coração tão frio quanto o gelo que cobre em fartas quantidades a paisagem "bonita, única, remota e poderosa", com a qual almejou viver em harmonia.

Nas primeiras páginas de Bird Cloud, a escritora se pergunta por que ninguém quer morar naquele mesmo espaço que ela escolhera como refúgio existencial. A paisagem é cinza. As estradas estreitas se alongam como serpentes. Vizinhos mais comuns, veados, antílopes, pelicanos e águias de cabeça pelada fazem visitas. A resposta para a sua decisão permanece envolta em mistério, enquanto Annie lamenta a luta para erguer uma construção grande o bastante para abrigar a sua biblioteca, e no centro da qual se instalaria uma mesa imensa. O móvel receberia os manuscritos, mapas e materiais de pesquisa da autora de Shipping News (1993).

A vontade tão ansiada de harmonia é adiada página a página. Aos poucos, o sonho toma a forma de claraboias, banheira japonesa, piso de concreto e gabinetes de cozinha com puxadores feitos de chifres de cervo. Tudo sob a ação da James Gang, apelido dado por Annie aos construtores: dois irmãos e um amigo. Esses homens se tornaram importantes para a escritora, que buscou a solidão do universo idealizado. Ela chega a caminhar pelas montanhas com os pedreiros e acompanhar um deles a uma consulta médica.

Annie deve ao Wyoming o fato de ser uma aclamada escritora. Pelo seu trabalho ficcional, ela foi honrada com o Pulitzer Prize, National Book Award, Irish Times International Fiction Prize e PEN/Faulkner Award e convidada para ser membro da American Academy of Arts and Letters. A sua ficção está calcada na observação acurada das planícies e montanhas do Cowboy State, no Oeste dos EUA, e das ações de seus habitantes. Brokeback Mountain, publicado originalmente na edição de 13 de outubro de 1997 da New Yorker, foi adaptado para o cinema por Ang Lee, que ganhou com o filme o Leão de Ouro do Festival de Veneza. No conto, Annie relata o amor entre dois jovens - Jack Twist e Ennis del Mar - iniciado em 1963. Apesar do preconceito da sociedade rural, eles sustentaram o relacionamento secreto, durante breves encontros em lugares isolados, pelas duas décadas seguintes. Conduzida por um narrador onisciente, a história incorpora localidades reais do Wyoming. "Estou sempre atenta às diferenças entre o que as pessoas esperavam, o que elas pensavam sobre si mesmas e o que de fato lhes ocorreu", disse Annie sobre Brokeback Mountain. Esse método está presente em Bird Cloud.

Mesmo sob o alerta de que não confia nos truques da memória, Annie realiza no livro ora lançado uma arqueologia do passado familiar. A autora conta ter mudado de casa várias vezes na infância, afetada pela ambição do pai. Canadense de ascendência francesa, ele ia aonde o trabalho estava, reinventando-se como um ianque provedor da suposta segurança da classe média. Esse nomadismo nos verdes anos e persistente na fase adulta explica a forte necessidade de criar raízes de Annie, hoje com 75 anos.

Cartas. O desejo de ascensão social do pai, vítima do preconceito dos americanos brancos e protestantes, pode ser entendido como o berço da intolerância de Annie para o insucesso de um objetivo. No início de Bird Cloud, como mais um exemplo da dificuldade de assimilar o fracasso, ela cita a descoberta de uma caixa de cartas trocadas entre a sua mãe e a sua tia, vítimas de uma doença no pulmão. Enquanto escrevia o novo volume, ela se revelou incapaz de "abrir a caixa que abriga a correspondência, porque todos os sonhos frustrados das duas mulheres sedentas por amor eram lançados contra a face".

Mais do que desvendar novidades, a atenta contemplação da natureza à margem do North Platte River tem o intuito de fixar uma paisagem imediatamente identificável na memória da escritora. A autora pretende se confundir com o cenário natural. É como se ela lutasse para acreditar que as marcas nas pedras feitas pelo vento e pela água em ações milenares fossem, na verdade, causadas pela sua frágil existência. O desejo de Annie resulta numa tarefa insana, cuja boa intenção talvez seja necessária, se a pessoa precisa ser movida pelo sonho.

Ela se diz desejosa desde a juventude de uma compreensão mais abrangente do mundo e de si mesma. Enquanto se lamenta, não deixa claro se atingiu esse entendimento depois de construído o imóvel dos sonhos. "Não tinha ideia dos problemas e disputas que seriam trazidos pela casa, lentamente construída com estresse e alta pressão sanguínea. Anos depois, ainda imagino se deveria ter evitado prejuízos e procurado um outro terreno", escreve em Bird Cloud. "Tinha de encarar o fato de que, por mais que adorasse aquele lugar, ele não era nem nunca seria a casa final com a qual havia sonhado."

A escritora teve a mesma sorte dos seus personagens. Criador e criatura se perderam no caminho, esmagados pela teimosia do destino de destruir planos. Bird Cloud é a constatação dolorosa de que Annie Proulx, confessadamente dominadora, explosiva, não pode fazer muita coisa com o que lhe está reservado. É a revelação de uma mulher escarafunchando o passado, distraindo-se com o presente, enquanto espera o futuro, esse portador de uma notícia inaceitável. Ela queria paz para cumprir a sina de todos, o desaparecimento. Mas ninguém está preparado para partir. E isso desconcerta demais.

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