À espera de uma alegria duradoura

Em várias fotografias da ocupação de um setor do Complexo do Alemão não aparecem armas nem cenas de repressão ao narcotráfico. São imagens de crianças e jovens que nadam numa piscina ou brincam ao redor dela. Uma dessas piscinas é a de uma "mansão" que pertencia a um chefe do tráfico, cujo apelido irônico é Polegar.

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2010 | 00h00

Joel Silva (Folhapress) fotografou uma piscina no Morro dos Macacos, onde já existe uma Unidade Policial de Pacificação (UPP). Essa piscina, antes de uso exclusivo de traficantes, agora é uma pequena área de lazer de crianças e jovens que, nas fotos, expressam alegria e liberdade.

São imagens que sugerem muitas perguntas ao poder público, não apenas do Rio, mas de todo o País. Desde a década de 1970, quando as migrações internas cresceram exponencialmente, a população pobre e miserável das periferias foi abandonada à sua própria sorte. Houve pouquíssimo investimento em infraestrutura, habitação, escolas, postos de saúde, lazer. A periferia é o inferno mais temido, e, de um modo geral, só interessa aos políticos em época de eleições. Lá, tudo é precário, como se esses brasileiros fossem seres desprezíveis, ou seres de um outro mundo, constrangidos e dominados pelos chefes do submundo do crime. Com graus variados de violência e mando territorial, esse submundo age por toda parte: Salvador, Recife, Rio, Belo Horizonte, Manaus, Belém, São Paulo... E também em capitais e municípios menores. Quando o Estado é indiferente e/ou ineficaz, o narcotráfico toma conta desses lugares, coopta uma parte da polícia e um punhado de moradores, e instaura uma força paralela, cruel e criminosa, de que a população é refém.

A recente atuação das Forças Armadas, da polícia federal e das polícias militar e civil do Rio foi eficiente e necessária. Ela é fruto da aplicação do Plano de Segurança Pública, elaborado pela equipe do ex-ministro da Justiça. Numa entrevista ao jornal argentino Página 12, Tarso Genro afirmou: "o sistema anterior era entrar, matar e sair. O novo sistema consiste em que o Estado entre, permaneça e se vincule profundamente com a comunidade mediante programas sociais, investimentos em infraestrutura, educação, urbanização. Ou seja: ocupação de território, ações policiais de alto nível, permanência da polícia e aprofundamento dos programas sociais para jovens. No Rio, foi muito importante a atuação do secretário de Segurança, Antonio Beltrame, nomeado pelo governador Sérgio Cabral". (www.cartamaior.com.br, 2-12-2010, trad. Katarina Peixoto)

É fundamental que as Polícias Comunitárias (UPPs) e os programas sociais sejam implantadas em outras favelas dominadas pelo tráfico. Será um processo lento e extremamente trabalhoso, pois é difícil instaurar os direitos civis depois de décadas de desprezo pelo povo. O livro Cabeça de Porco (de Luiz Eduardo Soares, MV Bill e Celso Athayde) relata com veracidade as causas que vitimam dezenas de milhares de jovens brasileiros a cada ano. É um retrato estarrecedor da vida de jovens e crianças de várias cidades e regiões do País, uma espécie de radiografia social, cujo diagnóstico revela vidas sem futuro, a maioria delas interrompida com violência.

A conquista dos direitos civis exige planejamento, determinação política, e um compromisso ético dos poderes públicos. E, por que não dizer, uma mobilização dos setores mais esclarecidos da sociedade.

O que alguns líderes do PMDB, PTB e outros partidos - que brigam como hienas vorazes por ministérios e cargos públicos - têm a dizer sobre a ausência quase total de direitos civis dos favelados? E um setor do poder judiciário, quando não pune bandidos de colarinho-branco? E os velhos clãs e oligarquias políticos? E o relator do Orçamento da União?

Até que ponto as "tenebrosas transações" não sequestram a humanidade dos desvalidos? Quando, afinal, os filhos da nossa pátria mãe tão subtraída terão direito a uma alegria mais duradoura, e não fugaz, como diz a canção genial de Chico Buarque?

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