A escrita em múltiplas formas

''Quanto mais variados os textos, mais precisam ser vistos juntos'', diz o inglês Geoff Dyer, que lança coletânea nos EUA

Luc Sante, Bookforum, O Estado de S.Paulo

14 de maio de 2011 | 00h00

Um escritor que hoje resiste persistentemente a ser enquadrado numa categoria parece zombar do senso comum. O ofício da escritura é uma forma de arte decadente, na melhor das hipóteses, porque os leitores procuram informações, de preferência sem ter o trabalho de penetrar em certas idiossincrasias, como o estilo. Pelo que sabemos, a busca de informações logo estará livre do obstáculo e da ambiguidade das palavras. No meio tempo, o escritor deve construir uma identidade como uma espécie de marca, e vinculá-la a uma temática quase delimitada. Se você escreveu um livro de memórias de sucesso sobre a pesca, Manitoba ou tendências suicidas, não deve distanciar-se excessivamente destes temas em obras posteriores. O que você quer é transformar sua banquinha de limonada numa cadeia de lojas.

De acordo com esses padrões, Geoff Dyer é autodestrutivo num grau quase inimaginável. Escreveu quatro romances (The Colour of Memory, The Search, Paris Trance e Jeff em Veneza, Morte em Varanasi), um estudo sobre o crítico de arte e romancista britânico John Berger (Ways of Telling), uma série de vinhetas biográficas sobre músicos de jazz, que consegue ter um pé na ficção e outro na não ficção sem perder o equilíbrio (But Beautiful), um extenso ensaio sobre os mortos da Primeira Guerra Mundial (The Missing of the Somme, que será publicado pela primeira vez nos Estados Unidos em julho deste ano), um livro sobre por que não escrever um livro sobre D.H. Lawrence (Out of Sheer Rage), uma série de artigos sobre viagens, do tipo "caia fora" (Ioga Para Quem Não Esta Nem Aí), um extenso ensaio sobre temas de fotografia (O Instante Contínuo), e agora esse livro com uma miscelânea de ensaios e textos curtos, que é uma vitrine da obra de Dyer nunca antes publicada nos EUA (inspirada em grande parte em dois volumes ingleses, Anglo-English Atittudes e Working the Room).

Otherwise Known As the Human Condition reúne artigos sobre fotografia, pintura, escultura, literatura, jazz, viagens, desfiles de moda, as Olimpíadas vistas pela televisão, sexo, ciclismo, aeromodelismo e quadrinhos, entre outras coisas, bem como uma série de abordagens sobre a autobiografia. Publicado hoje, de acordo com a sua filosofia, esse livro equivale a obrigar os consumidores a comprar uma sacola de dez quilogramas de tripas mistas toda vez que querem um pedaço de fígado. Aparentemente, alguns consumidores concordam. "Ler 25 textos reunidos de maneira aleatória, sem uma linha ou um tema concreto que os una, não foi um exercício tão tranquilo quanto havia imaginado. Só consegui ler dois ou três de cada vez, em várias semanas", queixa-se R.P. de Bug Tussle, New Jersey, na página de comentários do Amazon a respeito de uma coleção semelhante de outro autor (eu). E é certamente por isso que Otherwise Known as the Human Condition está sendo publicado como brochura original pela excelente Graywolf Press, e não em capa dura pelo cartel da Random House que publicou os últimos títulos de Dyer.

Não obstante, "quanto mais variados os textos", escreve Dyer, "mais obviamente precisavam ser vistos juntos como o trabalho de uma só pessoa - porque a única coisa que eles têm em comum é terem sido escritos por aquela pessoa". O que significa que, em vez de serem aglutinações de informações, essas obras se caracterizam pelo fato de serem escrita - e de suas intuições e sua expressão serem inseparáveis e talvez indistinguíveis. Elas são o oposto da Wikipédia: seu propósito é falar tanto do autor quanto do objeto aparente. O mesmo acontece com a música - você quer a voz antes de querer o som, não é? Ou você escolhe indiferentemente qualquer capa velha de Moon River e acha que está bom assim? É o que ocorre com um escritor como Dyer, o que você busca é a interpretação, em seus vários sentidos: a exegese, a profunda interiorização de um tema, uma reconstituição absolutamente inventiva daquele tema.

Na obra de Dyer tudo está perfeitamente unido, mas o que mantém o todo unido é uma voz, que se torna uma persona. É uma voz bem inglesa, contida, franca, modesta que nos chama, e pode se tornar íntima, mas não excessivamente, uma voz que pode transitar facilmente entre a comicidade e a seriedade. Ela encorpa em seus textos de reportagem e ensaios pessoais, em parte de sua ficção, e muitas vezes é pródiga e até mesmo lugubremente cômica. Dyer escapou de ser mais um membro da classe trabalhadora graças à educação (sua mãe trabalhava na lanchonete da escola e seu pai era um operário metalúrgico) e se apresenta munido de todas as defesas ocultas e as estratégias de camuflagem que esse fato implica. Aqui e ali ele nos dá uma impressão física: "Várias namoradas disseram que não sei nem abraçar. É que fico ali, envolvendo como um casaco a pessoa que deveria abraçar". Vez por outra, ele alude de relance ao fato de que é alto e desengonçado como M. Hulot, embora talvez tenha a metade da sua corpulência. Pouco a pouco, ele criou para si um indelével personagem literário, cujas aventuras vão, entre outros livros, de Out of Sheer Rage (não ficção) de 1998 a Jeff em Veneza, Morte em Varanasi (ficção) de 2009, nos quais se desdobra.

Na nova coleção ele está presente em cada texto, mesmo que esteja simplesmente sentado no sofá mostrando umas fotografias, como na primeira parte do livro. E faz isso muito bem; ele é um excelente observador. É especialista em observar os exemplos de falsidade na verdade e vice-versa: ou seja, que Richard Avedon "estabeleceu de modo incansável e inventivo padrões mais elevados para a naturalidade forçada"; que as fotos de acidentes apocalípticos de Enrique Metinides, feitas para os jornais e aparentemente honestas, compartilham com os quadros elaborados de Jeff Wall de um "estilo de realidade artificialmente aprimorada"; que as fotos escrupulosamente documentais de William Gedney são ao mesmo tempo inflexivelmente literárias. Dyer é um consumidor entusiasta e eclético de elementos visuais, que aprendeu muito com seu mestre eletivo, John Berger, e é adepto da busca de significados e de contextos provocadores e, às vezes, da narrativa em imagens fixas. Nada nesse livro é tão espantoso quanto seu tour de force O Instante Contínuo, que vai à caça de temas - um nu, um chapéu, uma barbearia, uma estrada - de um fotógrafo para outro ao longo das décadas, e tece essas visões juntas numa história ousadamente sincrética da fotografia, embora seus textos curtos preparem o terreno para essa empreitada.

O possível inconveniente dessa miscelânea, por outro lado, está na seção chamada Verbals, dedicada a resenhas e prefácios de livros para obras literárias. Evidentemente, algumas coisas são excepcionais. Seu prefácio de Filhos e Amantes de Lawrence é surpreendentemente profundo e sincero, e seu tributo a Black Lamb and Grey Falcon, de Rebecca West - uma mistura épica de narrativa de viagens e história que transita incansavelmente entre o passado e o presente (de 1941), dos Bálcãs - reivindica outro ancestral para a sua não ficção, um livro no qual "é impossível dizer onde a sensação termina e a reflexão começa". Portanto, é desanimador encontrar no meio disso uma coletânea de resenhas mornas de obras tépidas - Reparação de Ian McEwans e Ponto Ômega de Don DeLillo, por exemplo - apenas conscienciosas. Cada escritor que vive da escritura em geral produz esse tipo de coisas por encomenda; às vezes, surge uma intuição ou uma frase torneada, mas reuni-las entre duas capas foi provavelmente o que fez da coleção de um só autor sem um tema comum uma tentativa de reunir ingredientes que garantissem o sucesso de bilheteria. Além do que, os próprios livros de Dyer são tão mais interessantes do que alguns daqueles que ele apresenta. Mas vale a pena notar que a própria ficção de Dyer (muito distante de But Beautiful com seus malabarismos e sua dupla nacionalidade) é o lado menos interessante de sua obra multifacetada.

Seu romance mais recente, Jeff em Veneza, Morte em Varanasi, seguramente não deixa de ser muito gratificante, embora o seu valor seja de um tipo não ficcional: a observação e o autorretrato. Como esses dois temas se encontram abundantemente em seus escritos sobre viagens, DVJV pode parecer dois capítulos longos retirados de Ioga Para Quem Não Esta Nem Aí (2003).

A última parte é uma autobiografia compactada e em fatias. O autor introduz a família em seu ambiente ancestral, Gloucestershire, ao voltar para casa para o enterro do tio que se suicidou. Quando parte para regressar à França, seu pai, "como sempre, me deu duas notas de cinco libras, uma dele e a outra da minha mãe". O que remete a um texto sobre o isolamento pelo fato de ser filho único, que talvez fale mais dos hábitos econômicos das pessoas que passaram pela guerra, sem falar no isolamento por ele experimentado como bolsista de uma família de classe trabalhadora. No último ano em Oxford, ele volta para casa para visitar os pais e se surpreende porque a mãe trabalha na lanchonete da escola. Eles se abraçam e choram. "Eu era o único filho dos meus pais, mas a vida que eu continuaria a levar seria tão diferente da deles, e o aspecto mais importante dessa diferença era que eu jamais poderia explicá-la e traduzi-la para eles."

A maioria dos escritores, mesmo hoje, começa estabelecendo o tamanho e a dimensão do contêiner que pretendem encher - o romance, o livro de memórias, o livro de reportagens - e ajeita o material que possa caber nele. Dyer (como West e uma fila interessante e esparsa de escritores de George Borrow a Blaise Cendrars a W.G. Sebald) permite que o material determine a forma. Essa estratégia, sempre arriscada e imprevisível, impede, entre outras coisas, que a conclusão de um projeto de trabalho literário seja previsível. Sobre But Beautiful, observa: "Se eu soubesse o que tinha de saber antes de escrever o livro, não teria nenhum interesse em fazê-lo. Em vez de ser uma jornada de descobertas, escrever o livro seria uma tediosa tarefa de empregado de escritório, uma transcrição do conhecido". Mas ele é o tipo de escritor que segue a sugestão do crítico Harold Rosenberg: "Perambule nas proximidades de um problema. Depois de algum tempo, acabará esbarrando numa solução". Se você levar a sério essa estratégia talvez tenha uma chance de tornar-se, como Dyer muitas vezes é chamado nas orelhas dos livros, "impossível de classificar". / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

LUC SANTE É O AUTOR DE LOW LIFE (FSG, 1991) E KILL ALL YOUR DARLINGS (YETI, 2007)

OTHERWISE KNOWN AS THE HUMAN CONDITION

Autor: Geoff Dyer

Editora: Graywolf Press

(Importado, 432 págs., US$ 11,51)

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