A escrita como processo de vida

A sul-africana Nadine Gordimer, Nobel de 1991, que está lançando no exterior uma coletânea de ensaios e outra de contos, discute a delicada relação, em sua trajetória, entre arte e política

Emma Brockes, The Guardian, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2010 | 00h00

Nadine Gordimer chega aos 87 anos (irá completá-los no próximo dia 20) mais resistente do que nunca a autobiografias. "Minha vida particular é minha vida particular", diz a vencedora do Prêmio Nobel , pequena, chique, corpo de bailarina. Isso só faz da leitura de seus textos de não-ficção - reunidos agora em Telling Times (WW Norton, R$ 90) - um exercício de busca por pequenos lapsos: as freiras com cara de pão que lhe davam aula na escola; seu precoce "talento para a exibição". Em certo momento, ela diz até que a única coisa capaz de desviar sua atenção da ficção é "estar apaixonada". Para Gordimer, de qualquer forma, este é um ano de coletâneas - além dos ensaios, foram reunidos em Life Times ( Farrar, Strauss and Giroux, R$ 68) contos publicados desde os anos 50, quando ela começou a escrever, até os dias de hoje. "Você se surpreende ao ver que trabalhou tanto", ela diz, e completa, sobre os ensaios: "São apenas uma pequena faceta. A ficção é o que de fato importa."

Mas com certeza seus textos sobre política serviram a um propósito? "Não sou apenas uma escritora, sou um ser humano, com responsabilidades. Se escrevia, é porque as coisas aconteciam. E porque eu precisava", diz, lembrando do primeiro ensaio de Telling Times, publicado na New Yorker, sobre uma cidade mineira próxima a Johannesburgo. "Se eu o escrevi, foi também porque precisava desesperadamente do dinheiro."

O ato da escrita como fruto de inspiração aconteceu mais tarde. Ela identifica o motivo em um incidente na casa da família, quando tinha 12 anos. Netty, empregada da casa, foi alvo de uma busca da polícia. "Eles arrancaram seu colchão, suas roupas, jogaram tudo o que ela tinha no jardim, todas as suas pequenas coisas. Eles estavam à procura de álcool - sul-africanos negros não podiam comprar bebidas. Eu e meus pais observamos toda a cena." A polícia não encontrou nada e foi embora. O que mais a chocou, porém, foi o silêncio de seus pais. "Eu era grande o suficiente para saber que eles precisavam de um mandado. Mas simplesmente entraram e fizeram aquilo. E meus pais não disseram nada, não fizeram nada. Uma das minhas primeiras histórias surgiu aí."

Foi a leitura e a escrita que a salvaram, diz Gordimer, "Kafka mais do que Marx". Ela recebeu dos pais o melhor presente para um jovem escritor: eles a deixavam em paz. A partir dali, "escrever tornou-se minha única atividade, minha única disciplina". Em 1963, ela observou: "Os problemas do meu país não me levaram a escrever; pelo contrário, foi ao aprender a escrever que comecei a mergulhar além da superfície da vida na África do Sul". Escrever também a indispôs com sua família, da qual se afastou assim que pode, para fazer a universidade em Johannesburgo e, em seguida, para se casar. Hoje, ao olhar para o passado, ela vê que a pressa em partir a fez perder algumas coisas. "Eu me arrependo por não ter perguntado a meu pai sobre seu passado na Letônia, onde nasceu. Ele vinha de origem pobre, viveu sob o poder de tiranos czaristas. Mas, de alguma forma, seu passado nunca foi parte de nossas conversas."

De todas as noções equivocadas sobre seu trabalho, a que mais a incomoda é a de que, por escrever sob o apartheid, ela teria se sentido obrigada a usar sua ficção em favor dos liberais. "O processo de escrita é inconsciente, vem do que você está aprendendo à medida em que vive. Todo processo de escrita é descoberta. Estamos procurando o sentido da vida. Não importa onde você está, sempre haverá conflitos. Se você escreve com uma causa específica em mente, você faz propaganda. E isso pode ser fatal para o ficcionista."

Gordimer é atéia, ainda que certa vez tenha afirmado ter um "temperamento religioso". Ela diz que não passou de um momento de fraqueza. "A questão é como alguém pode acreditar nesses contos de fada confortáveis, que há alguém lá em cima, seja Maomé ou Jeová? São contos de fada bonitos - ou repletos da ideia de culpa."

Ela acredita no progresso do país. "Passaram-se apenas 16 anos desde as primeiras eleições democráticas. Na Inglaterra ou nos Estados Unidos, são séculos dedicados à democracia e nem tudo é perfeito, ainda há pobres, há xenofobia. Mas o mundo espera que tenhamos as respostas em 16 anos." Ela era uma fã do ex-presidente sul-africano Thabo Mbeki, apesar "do azar de ser um intelectual". Quando Gordimer conheceu Robert Mugabe, pouco depois de sua chegada ao poder no Zimbábue, teve a sensação "de que era um bom homem; mas é a velha história do poder que corrompe", diz. "Ele parece ter enlouquecido um pouco. E eu também culpo as mulheres. Muitas vezes, as mulheres desses homens se tornam compradoras compulsivas, viajam o mundo gastando dinheiro enquanto tanta gente morre de fome." E o que ela acredita que vá acontecer quando Nelson Mandela morrer? "Ele esteve conosco enquanto viveu na prisão e, de alguma forma, estará conosco depois de morrer. Não sei por quanto tempo, mas ele acabará se tornando um ícone como Gandhi."

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