A escrita agônica de Clarice Lispector

Num de seus últimos textos, produzido a pedido do Sabático, o estudioso destacou o lugar de A Hora da Estrela na obra da autora

Benedito Nunes, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2011 | 00h00

Embora possamos distinguir linhas comuns às seis novelas - Perto do Coração Selvagem, O Lustre, A Cidade Sitiada, Maçã no Escuro, A Paixão Segundo GH e Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres - publicadas em vida da autora, é em A Hora da Estrela, vinda a lume dois meses antes de Clarice Lispector morrer, que podemos divisar o conflitivo e agônico processo de sua narrativa romanesca.

A Hora da Estrela abriga duas histórias diferentes entrelaçadas e dois narradores geminados: um falso, Rodrigo S. M. e outro nominalmente verdadeiro, Clarice Lispector, que como tal se apresenta na portada e na primeira página da obra. A primeira história é a vida de uma moça nordestina, Macabéa, datilógrafa de profissão, que Rodrigo S. M. se propõe a contar quando a vê casualmente numa rua do Rio. Mas o narrador também se faz personagem, refletindo-se na vida da nordestina e dela se tornando inseparável. A rigor, temos uma terceira história, autografada por Clarice Lispector em lugar de Rodrigo S. M. e dedicada a ilustres músicos como Schumann, Beethoven Bach, Chopin, Stravinski, Marlos Nobre, Prokofiev. Esse estranho texto não se vincula a nenhum dos conhecidos gêneros literários e se atribui 13 outros títulos que lhe poderiam servir.

Mas ilustres precedentes, de Machado de Assis a Oswald de Andrade, não lhe faltam em nossa história literária. Tal como Machado em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Clarice aí pratica o artifício da falsa autoria. Na verdade, porém, ela se desmascara completamente ao converter-se em personagem. Sem pudor, exibe seus fingimentos e permanece em disputa consigo mesmo e com o real, tal como já sucedia em seu primeiro livro, Perto do Coração Selvagem, de 1944, quando já sua ficção problematizava a si mesmo e ao real.

Também, a exemplo de seus precedentes históricos principais, À La Recherche du Temps Perdu, de Marcel Proust, e Ulysses, de James Joyce, na novelística de nossa autora se configurou a passagem da consciência individual ao primeiro plano da narração, como agente da transfusão artística da realidade. É quando, conforme comenta Lévi-Strauss em L"Origine des Manières de Table, a narrativa, depois de ter começado a contar histórias que não terminam bem, fadada está em mal terminar como gênero.

Já a ação dos protagonistas dos romances de Clarice Lispector, seja Joana de Perto do Coração Selvagem, Virginia de O Lustre, Martim de A Maçã no Escuro, é toda interior, sendo mínima a distância entre narrador e personagem, mesmo quando a narrativa se dá em terceira pessoa, como é o caso de A Cidade Sitiada. Também escrita em primeira pessoa, A Paixão Segundo G.H. é um relato confessional provocado por um trivial incidente doméstico: a morte de uma barata que G.H. esmaga na porta de um guarda-roupa do quarto da empregada e à vista da qual se sente nauseada: "Era uma cara sem contorno. As antenas saíam em bigodes dos lados da boca. A boca marrom. Os finos e longos bigodes mexiam-se lentos e secos. Seus olhos pretos facetados olhavam". Fascinada pelo inseto morto, G.H. cai em transe, num estado semelhante ao êxtase dos místicos, e que ela narra post factum e de maneira inacabada a um Tu imaginário a quem se dirige. Clarice então alcança nesse seu texto de entranhada dramaticidade no qual o ato de narrar se problematiza juntamente com a identidade pessoal de quem narra, o ponto crítico da literatura contemporânea que põe em causa o alcance e os limites da ficção literária.

G.H. sacrificaria o seu próprio Eu, ou seja, o senso de propriedade da criatura humana em relação a si mesma, ao engolir, numa espécie de comunhão primitivista e sacrílega, a massa branca da barata esmagada. Como no êxtase místico, a personagem percorre a escala dos sentimentos extremos e contraditórios. Um "horrível mal-estar feliz" aproxima-a do Inferno; a repugnância à matéria viva, orgânica, diante de seus olhos, proporciona-lhe a "alegria demoníaca de perder-se".

Na visão agônica que a personagem-narradora sobrepõe ao salvacionismo cristão, Deus e o homem situam-se num mesmo plano ontológico, muito embora permaneça a carência do segundo, já assumindo um sentido trágico. Desapareceria o sobrevoo da esperança inerente à temporalidade do cristão.

Como nos grandes novelistas da época atual, já não há mais em Clarice Lispector uma boa consciência literária. Ao sentimento de adesão confiante no ato de escrever, à entrega ao rito da criação, sucede uma atitude de suspeita, de reserva crítica, que obriga a escritora a indagar, a cada passo, sobre a razão de ser, sobre o objeto e finalidade de sua arte: Por que narrar? O que narrar? Como e para que narrar? Tais perguntas perpassam, como silentes indagações não escritas da narradora, sua criação ficcional agônica.

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