A escolha de Marin

Nova regente titular da Osesp, Marin Alsop terá que conseguir conciliar compromissos mundo afora

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2011 | 00h00

Nova regente titular da Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo), a norte-americana Marin Alsop passou rapidamente pela cidade neste fim de semana. Em dois dias, teve tempo para encontrar-se com os músicos, conversar com jornalistas e vislumbrar o enorme desafio que terá pela frente: como imprimir sua marca a uma orquestra com a qual passará pouco mais de dez semanas por ano?

O prestígio internacional de Marin e a possibilidade de que ela empreste a própria visibilidade à orquestra foram as apostas da Osesp na hora de fazer sua escolha. Caberá a regente, agora, encontrar o delicado equilíbrio entre suas atribuições na orquestra de São Paulo e uma intensa agenda profissional. Além de regente requisitada mundo afora, deve manter-se como diretora da Sinfônica de Baltimore.

Tão logo assumiu o comando da orquestra americana, em 2007, essa nova-iorquina transferiu-se para lá com o filho e a mulher, a trompista Kristin Jurkscheit. Para mostrar envolvimento com a comunidade, chegou a desembolsar US$ 200 mil para projetos sociais e dedicou-se a eles pessoalmente.

Aqui, o vínculo não deve ser da mesma ordem. Mas não são poucos nem modestos os planos que a maestrina tem para o posto que assume a partir de 2012. Em entrevista ao Estado, Ms. Alsop falou sobre como planeja transformar a Osesp em uma "orquestra do século 21" e mostrou por que representa um novo modelo num mundo ainda dominado por homens: "Não podemos mais lidar simplesmente com a ideia de que as pessoas irão à sala de concerto assistir a uma apresentação, sentar-se passivamente e ouvir. Isso não basta."

Qual será seu maior desafio diante da Osesp?

Meu maior desafio é descobrir como distinguir a orquestra na cena internacional. É importante tocar em um nível muito alto, sair-se bem em um repertório canônico. Mas o que irá distinguir a Osesp de qualquer outra orquestra no mundo? Será o repertório? A atitude? O jeito de tocar? Não sei. Talvez todas essas coisas.

A senhora falou em um repertório canônico, mas para distinguir-se também é preciso que a orquestra busque um repertório menos usual. Como criar uma identidade nesse campo?

Talvez buscando mais influências brasileiras e da América Latina. Outra possibilidade é se alimentar do espírito da cidade - uma cidade que sente jovem, cheia de energia. Talvez esse seja o perfil que buscamos, uma orquestra mais próxima do século 21, mais arrojada. Mas nós teremos, é claro, que criar um equilíbrio entre isso e o repertório canônico, com Mahler, Beethoven, Brahms.

Hoje, em orquestras como a Filarmônica de Nova York, a música de criação representa quase 30% do repertório executado. A senhora pretende encorajar compositores contemporâneos, incentivar a criação de novas obras?

Sim, tenho muita vontade. Não sei em termos de porcentagem quanto deveria ser, mas teremos que encontrar a nossa medida. A última vez em que estive aqui, fui à Bienal e fiquei muito impressionada, particularmente com os artistas brasileiros. Existe uma grande vitalidade e energia em suas obras. Seria ótimo ter essa mesma experiência aqui com a música contemporânea.

O que conhece de música brasileira? Quais são os compositores brasileiros com os quais está familiarizada?

Realmente não conheço o suficiente. Estou familiarizada com os nomes mais tradicionais: gente como Villa-Lobos, Camargo Guarnieri. E, recentemente, ouvi umas poucas coisas de Almeida Prado.

Como conciliar suas atividades como diretora da orquestra de Baltimore, sua agenda de concertos internacionais e seu trabalho aqui na Osesp?

É um balanço complicado. Mas o fato de a temporada aqui ser exatamente no intervalo da temporada de nossa orquestra em Baltimore irá funcionar muito bem para mim. Depois de junho, estarei bastante disponível até setembro. Diria que é uma situação quase ideal.

A senhora falou em transformar a Osesp em uma orquestra do século 21. O que seria exatamente essa orquestra do novo século, que modelo a senhora tem em mente?

Estamos falando de uma nova atitude. Não devemos simplesmente fazer as mesmas coisas porque elas são feitas assim há 200 anos. Acho que a missão de executar música com excelência é a mesma de 50 ou cem anos atrás. Mas podemos pensar, por exemplo, em fazer um concerto à meia-noite, para um público diferente. Ou em usar roupas diferentes. O que fazemos será o mesmo, mas o jeito de fazer é diferente. A apresentação, o embrulho, isso muda. Não podemos mais lidar simplesmente com a ideia de que as pessoas irão à sala de concerto assistir a uma apresentação, sentar-se passivamente e ouvir. Temos que criar oportunidades para disseminar digitalmente o que fazemos.

O que as novas tecnologias e as novas mídias podem fazer por essa nova orquestra?

Há coisas novas surgindo a cada dia, nem sabemos o que está por ser inventado. Por exemplo, se alguém quer assistir ao nosso concerto on line, talvez seja possível instalar uma câmera no palco. Podemos criar essa interação.

A senhora é muito conhecida pelo caráter social do seu trabalho, com projetos educativos. Desenvolve projetos em Baltimore e estabeleceu um vínculo com aquela comunidade. O que é possível fazer aqui?

É importante conhecer o que já está sendo feito. Quando estive aqui pela primeira vez visitei alguns projetos e, da próxima vez, quero conhecer tudo. Precisamos ver como a orquestra pode se conectar com todas essas propostas. É preciso mapear o caminho a ser seguido. E eu realmente espero ajudar nisso.

A senhora é uma mulher em um território ainda dominado por homens. Na sua opinião, por que a música clássica permanece como um território masculino?

Acho que é porque se trata de um território muito conservador. Como disse, há 200 anos são as mesmas roupas, o mesmo jeito de fazer as coisas. Todas as mudanças são muito lentas. Mas vocês aqui têm uma mulher presidente, não é? Acho que este não é um grande problema para o Brasil.

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