A escalada de 'O Artista'

Diretor Michel Hazanavicius diz que o projeto levou 12 anos até chegar hoje ao favoritismo para o Oscar

LUIZ CARLOS MERTEN , O Estado de S.Paulo

07 de fevereiro de 2012 | 03h09

Jean Dujardin pode ter perdido neste fim de semana seu favoritismo para o Oscar. Isso, naturalmente, se vazar para os votantes da Academia uma decisão da Justiça, que ordenou a retirada dos cartazes do novo filme do astro, que estreia dia 29 em toda a França, três dias após a festa de premiação, em Hollywood. Chama-se Les Infidèles, Os Infiéis, e no cartaz polêmico Dujardin, com a cara grave, olha para o público. Uma legenda reproduz a frase presumível. "Querida, estou entrando numa reunião." Mas, na verdade, ele está indo para a farra, como mostram as duas pernas de mulher abertas à sua frente.

Vocês sabem como os norte-americanos são sensíveis ao politicamente correto. E nada mais ofensivo às mulheres - conforme determinou a Justiça francesa - do que essa imagem. Vai ser uma pena se Dujardin perder seu Oscar por isso, até porque o filme, tratando de um esporte (o adultério) no qual os franceses, segundo seu cinema, se dão bem, não encampa a bandeira do machismo.

Numa entrevista por telefone, de Los Angeles, o diretor Michel Hazanavicius conta que até chegar ao atual favoritismo - dez indicações, incluindo melhor filme, diretor, ator (Dujardin) e atriz coadjuvante (Bérenice Béjo, mulher do cineasta) -, O Artista foi um projeto que o perseguiu durante mais de dez anos. Doze, exatamente. Nenhum produtor queria ouvir falar. Um filme sem diálogos, em preto e branco. Loucura. O próprio Dujardin, parceiro de Hazanavicius na bem-sucedida série do agente 0017 - o James Bond francês -, que sempre foi cúmplice do diretor, na hora H, quando finalmente surgiram produtores dispostos a bancar a extravagância, vacilou.

Ele temia que no filme fosse muito experimental, que o público desertasse. Hazanavicius o seduziu com o que na época parecia um argumento improvável. "Pense, Jean, os norte-americanos vão adorar. E você vai chegar a Hollywood pela grande porta." Hazanavicius foi profético, mas antes de ganhar os prêmios de melhor ator no Globo de Ouro e no SAG, o sindicato dos atores, Dujardin foi melhor ator em Cannes, no ano passado. Robert De Niro, presidente do júri, agradeceu aos dois pelo "regalo". Começou ali, na Croisette, a escalada de O Artista.

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