A escala cósmica e a tragédia humana

Nostagia da Luz relaciona a astronomia com os crimes da ditadura Pinochet

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2010 | 00h00

É um curioso lugar, o deserto de Atacama, no Chile. Nele, a atmosfera é tão pura que permite aos astrônomos estudarem as galáxias mais distantes do universo através dos seus instrumentos. Nele, o clima é tão seco que conserva restos mortais por longo tempo. O deserto é uma memória da história, passada e recente. Um depósito de restos, um paraíso para investigadores celestes e arqueólogos. Permite vislumbrar as origens do universo e seus mistérios; contém vestígios do passado infinitamente mais próximo dos crimes humanos de uma ditadura militar. Em Atacama, o sentido cósmico e o político se aproximam e entrecruzam. Dessa simbiose, nasce um extraordinário filme, o documentário Nostalgia da Luz, de Patricio Guzman.

Guzman já é conhecido do público brasileiro, pelo menos dessa parte do público que se interessa pelo cinema latino-americano e pelas vicissitudes históricas do continente. É autor de um documentário épico, Batalha do Chile, nada menos de cinco horas dedicadas à ascensão e queda de Salvador Allende, o presidente da Unida Popular, deposto e assassinado dia 11 de setembro de 1973 e substituído pela ditadura de Augusto Pinochet. É uma história política e partidária, porém também embebida de apurado senso estético, em que Guzman dá mostras de seu talento como cineasta cuidadoso com a forma e não apenas com o conteúdo engajado de suas obras.

Rigor. É também esse cuidado que vemos expresso em cada fotograma de Nostalgia da Luz. Um rigor de câmera, do trabalho de luzes e sombras, uma sensibilidade notável nos enquadramentos. É cinema em estado puro. Mas que não se esgota em si mesmo; quer dizer, não se esteriliza na complacência de sua beleza.

Primeiro, ele apresenta, de maneira sutil, o trabalho dos investigadores do observatório montado no deserto para a observação das estrelas e das galáxias. Um sentido cósmico é proposto ao olhar do espectador - o da comparação entre o infinitamente grande do universo e o infinitamente pequeno do destino humano. Somos apenas poeira entre as estrelas cuja imagem nos chega de uma distância de milhões de anos-luz; o nosso tempo biológico é ínfimo, e nosso destino, irrelevante diante das distâncias descomunais, da escala brutal dos astros.

De modo sutil, no entanto, o foco do filme vai sendo deslocado. Da medida cósmica, passamos ao metro humano. Descobrimos que a magia de Atacama esconde um lado sinistro. Era no deserto que ficavam cemitérios clandestinos das vítimas da ditadura Pinochet. Naquele mundo desolado e distante da civilização (se é que o termo pode ser empregado para aquela época), os cadáveres de opositores assassinados eram enterrados, na esperança dos assassinos de que desaparecessem para sempre. Nesse ponto, entram em cena outros investigadores, tão obstinados quanto os caçadores de estrelas dos observatórios, os arqueólogos e parentes de vítimas que esquadrinham o solo do deserto em busca de traços dos "desaparecidos" do regime.

O espectador aprende então que é tão difícil descobrir uma nova estrela no universo infinito quanto encontrar um fragmento de osso de uma vítima do regime. Se o sentimento de descobrir algo em escala cósmica é o de efusão, e desperta a admiração pelo pesquisador, o que dizer diante de alguém que procura anos a fio por um fragmento do que um dia foi um ente querido, para que possa lhe dar uma sepultura? E, novamente, a sensação de tamanho relativo, se altera. Sentimo-nos grandes por pertencer à espécie capaz de formular hipóteses e especular sobre o Big Bang; sentimo-nos ínfimos por pertencer à mesma espécie capaz de produzir criminosos políticos.

O filme trabalha de maneira contínua nessa fina relação, nessa fronteira complementar entre nossa grandeza e nossa baixeza. É uma maneira completamente original de ser político, de pensar a relação humana em sua dimensão histórica, e nessa dupla perspectiva. Em uma, o homem é centro; em outra, periferia. Ao silêncio do espaço infinito, que angustiava Pascal, responde com o rumor da sua tragédia no espaço histórico. Ambas se opõem, se contradizem e se completam. A "verdade" do homem (se existe uma) está entre os dois polos.

Mas a impressão final do filme não é apaziguadora. Pelo contrário. Ele nos traz beleza e apreensão. Simpatizamos com a busca da ciência, que seus protagonistas sabem sem fim. Nos compadecemos com a tragédia das vítimas - e nos inquietamos por saber que ela foi possível. Aconteceu há pouco, entre nós.

Luto. E, nesse sentido, nos permite uma reflexão suplementar, a nós, brasileiros, que vemos este belo filme chileno. Há, nele, o testemunho de uma arqueologia da dor que só nos é dado admirar. Podemos compreender o prolongado, para não dizer infinito, trabalho de luto das pessoas que perderam parentes em circunstâncias trágicas. Precisam encontrar os restos ínfimos daqueles corpos para lhes dar sepultura, pois é o que permitiria encerrar o processo de luto e retomar a vida. Arrancar esses ossos à sua condição mineral, no subsolo do deserto, é a maneira física de devolvê-los à sua condição simbólica de existência humana.

São atos pessoais. Mas são também atos coletivos e, portanto, políticos. Escavar o passado à sua exaustão pode ser um trabalho que consome uma vida inteira. É também um ato de resistência histórica diante do horror. Uma maneira de contribuir para que ele seja para sempre lembrado. E que não se repita. Essas pessoas são heroicas, no sentido completo do termo. Entregam sua vida em nome de algo maior.

NOSTALGIA DA LUZ

Belas Artes 2 - Hoje, 16h10

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