A era dos impostores

Hoje em dia, o personagem mais midiático da Espanha é o "pequeno Nicolás", um jovem na faixa dos 20 anos que desde a adolescência conseguiu, enganando meio mundo, fazer-se passar por amigo da realeza, de grandes empresários, autoridades e políticos de alto escalão e do serviço de inteligência, que o teriam, todos eles, encarregado de missões delicadas e importantes. O extraordinário do caso é que um bom número desses personagens engoliu suas patranhas, o recebeu, o escutou e (ao que parece) até o recompensou por seus serviços. Na era do espetáculo em que vivemos, o bufão é o rei da festa.

Mario Vargas Llosa, O Estado de S.Paulo

01 Janeiro 2015 | 02h03

Javier Cercas acaba de publicar um livro, El Impostor, consagrado a Enric Marco, o mais notável embusteiro de nosso tempo e, aliás, de todos os tempos. Sua história deu a volta ao mundo há nove anos quando um historiador persistente, Benito Bermejo, revelou que Marco, presidente da associação que reunião os sobreviventes espanhóis dos campos de extermínio nazistas, que havia publicado livros, artigos, proferido centenas de conferências em colégios, universidades e havia feito chorar os congressistas quando discorrera, no Parlamento espanhol, sobre os horrores indizíveis que ele e seus companheiros padeceram naqueles matadouros humanos, era um mentiroso de primeira linha que jamais esteve em nenhum desses campos nazistas e havia inventado de cabo a rabo aquela biografia heroica de resistente republicano, exilado e prisioneiro da peste parda hitleriana. Enric Marco, já muito conhecido por suas campanhas para manter viva a memória histórica do Holocausto, ficou ainda mais famoso, dentro e fora da Espanha, como autor do mais formidável embuste do século.

O livro de Cercas é vários livros em um, mas, sobretudo, uma pesquisa rigorosa e maníaca para desenredar o que é verdade do que é mentira na vida pública e privada de Enric Marco. Ele descobre muitas coisas: que as imposturas de Marco começam com sua própria juventude, atribuindo-se um passado de combatente republicano e resistente anarquista nos primeiros anos da ditadura franquista, e que elas balizam toda sua existência. Mas, também, que essas mentiras em cadeia estão quase sempre encadeadas com verdades, experiências vividas às quais ele coloriu, exagerou, matizou e diminuiu para tornar mais persuasivas as ficções com que foi adubando constantemente sua biografia escorregadia.

Ele não desvenda tudo porque a maneira como ficção e realidade se confundem na vida de Enric Marco é inextricável.

Por que dedicar tantos esforços a essa tarefa? Só pelo fascínio que lhe provoca a audácia embusteira do personagem, este romance vivo que é Enric Marco? Com certeza, mas, também, porque provavelmente nunca ninguém antes deste encarnou as relações entre ficção e realidade de uma maneira tão absoluta e excelsa. Todos os seres humanos sonhamos em ser outros, escapar das fronteiras estreitas dentro das quais transcorre nossa vida; por isso e para isso existem as ficções - os romances, os filmes, os dramas teatrais, as óperas, as séries de televisão, etc. -, para satisfazer vicariamente a fome de irrealidade que nos habita e nos faz sonhar com vidas melhores ou piores do que a que somos obrigados a viver. Enric Marco conseguiu ser, graças a sua audácia, seu talento transformista e sua falta de escrúpulos, como no poema de Rimbaud, um mesmo e outro ("Je est un autre"). Além de uma investigação jornalística incisiva, o livro de Cercas é um ensaio sutil sobre a natureza da ficção e o modo como ela pode se infiltrar na vida e transformá-la.

E é, também, uma pesquisa pessoal e dramática sobre as responsabilidades morais de um escritor que, como ele, tenta, através do que escreve, entender as razões profundas do personagem cuja história reconstrói. Compreender Enric Marco não é, de certo modo, justificá-lo, reabilitá-lo, dar verossimilhança e consistência às razões que ele esgrime com tanto empenho contra os que o condenam, dizendo que sim, cometeu um grande delito, mas o fez por uma razão válida e superior, para dar mais força e publicidade às atrocidades do Holocausto, para despertar nas novas gerações um sentimento de espanto contra os crimes do nazismo, resgatar e desagravar suas vítimas, aqueles milhões de seres humanos sacrificados nos campos de extermínio, nove mil dos quais foram espanhóis? Cercas não quer que esse impostor desmedido pareça simpático e, para que ninguém se engane a esse respeito, o cumula de epítetos condenatórios a cada passo. Ele também os atira na cara ao próprio Marco que, por estranho que pareça, prestou-se a conceder-lhe muitas horas de entrevista para facilitar seu trabalho inquisitorial, e, a cada momento, o recorda que não escreverá o livro para defendê-lo nem para atenuar sua culpa, mas para desentranhar a pura e terrível verdade, isto é, para afundá-lo por completo na ignominia moral. O mais notável é que quem ganha a partida que se disputa neste livro incandescente não é o retilínio Cercas, mas o delituoso Marco.

O excelente romancista que é Javier Cercas se esqueceu, fascinado como estava pelo tema e matéria de seu livro, que os bons romances sempre convertem os "maus" em bons, mas aqueles acabam sempre a despertar no leitor (e, ainda que não queira, no próprio narrador) uma atração irresistível que vence e destrói suas reservas ou princípios éticos ou políticos e os transforma em empatia. O livro que ele escreveu é, ainda que ele assim não quisesse, um romance (magnífico) sobre um personagem fora do comum, um ser ontologicamente novelesco que tinge a vida de ficção, um visionário taumatúrgico que "irrealiza" a realidade com sua audácia ilimitada. O herói do livro não é quem o relata, mas o genial embusteiro, o espantoso e inverossímil Enric Marco.

Ele, só ele.

Comparado à peripécia prodigiosa que lhe permitiu deixar de ser a insignificância humana que era e converter-se em um gigante, que irrisório e esquecível parece o desmancha-prazeres de sua história, o decente e honesto historiador Benito Bermejo que, sem nem sequer se beneficiar com isso e até recebendo por sua altruística tarefa um bom número de ataques, o desmascarou, guiado somente por seu amor à verdade e sua repugnância pelas mentiras históricas.

Vivemos uma época em que os embusteiros nos rodeiam por todos os lados e a imensa maioria deles - banqueiros, autoridades, dirigentes políticos e sindicais, juízes, acadêmicos - mente e delínque para se enriquecer, sórdido desígnio vital, sem que suas histórias transcendam as previsíveis trapaças do ladrão vulgar. Pelo menos, Enric Marco o fazia com horizontes mais amplos e, sim, por que não, menos egoístas. A verdade é que ele nunca lucrou com suas mentiras e as sustentou e defendeu com uma energia admirável, trabalhando como um verdadeiro forçado e, é verdade, fazendo muitos jovens, e um bom número de homens e mulheres maduros, tomarem consciência do que significaram os campos da morte do nazismo e da obrigação cívica de resgatar suas vítimas. Que Marco era, que é, um narcisista ávido por publicidade, um ávido "midiopata", obcecado por sair sempre na foto? Sem a menor dúvida. Mas sua enfermidade é uma enfermidade de nosso tempo, de uma cultura em que a verdade é menos importante que a aparência, em que representar é a melhor (talvez a única) maneira de ser e de viver. A ficção passou a substituir a realidade no mundo que vivemos, e, por isso, os medíocres personagens do mundo real não nos interessam nem entretêm. Os fabuladores, sim. Não estranha que numa época assim, o "pequeno Nicolás" e o gigantesco Enric Marco tenham sido capazes de perpetrar suas canalhices, perdão, queria dizer suas proezas. A culpa não é dos romancistas, eles só contam as histórias que seus leitores gostariam de viver. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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