A era do piano à beira do abismo

No início do jazz, os pianistas eram chamados de "professores". Com aquele instrumento grande e pesado, não se misturavam com a jazz band, que tocava nas ruas e em bares apertados. Os professores tocavam nos bordéis luxuosos de Nova Orleans. Até que os bordéis foram fechados, as bandas de jazz deixaram as ruas e todos subiram o Mississippi em busca de tempos melhores. Foi na Chicago dos anos 1920 - berço das primeiras grandes gravações do jazz - que piano e orquestra se juntaram e seu casamento foi infinito. Enquanto durou.

Roberto Muggiati, O Estado de S.Paulo

16 Abril 2011 | 00h00

A interação do piano com os outros instrumentos enriqueceu o jazz. O lendário Hot Five de Louis Armstrong começou num esquema doméstico, com sua mulher Lil Hardin ao piano. Quando Earl Hines entrou no lugar de Lil, em 1928, ele criou um estilo novo, inspirado no sopro de Armstrong: o trumpet piano. Quando surgiu o bebop, 20 anos depois, o instrumento-rei era o sax-alto de Charlie Parker. Bud Powell criou um estilo novo, batizado de saxophone piano. Com sua riqueza harmônica, o piano favoreceu a expansão do jazz moderno, cuja improvisação se baseava nos acordes. Em vez de se entregar a floreios melódicos, os músicos improvisavam a partir dos acordes, criando temas inteiramente novos (e nem sempre reconhecíveis) a partir da grade harmônica dos standards ou blues. Houve pianistas que foram compers (acompanhantes) fabulosos para os saxofones, trompetes ou trombones solistas, mas até eles foram perseguidos pelo vírus da autonomia (o fantasma da liberdade, diria Buñuel). Horace Silver e Bill Evans foram dois exemplos consumados do pianista "anfíbio". Outros se conformaram em alimentar com acordes os solistas, mas com muita relutância. Um momento exemplar desse choque foi a gravação do álbum Miles Davis and the Modern Jazz Giants, na véspera de Natal de 1954, despida de qualquer espírito cristão. Monk começou a criar problemas e Miles o mandou ficar de fora na maioria das faixas.

Fats Waller, o pai do piano stride, liderou muitos pequenos grupos de jazz, mas sempre se sentia mais à vontade tocando sozinho. Art Tatum, o homem que iniciou a "desconstrução" do piano, fez gravações geniais com os saxes de Benny Carter e Ben Webster, a clarineta de Buddy de Franco e o vibrafone de Lionel Hampton, mas sempre foi um lobo solitário. Entre seus fãs ardorosos estavam o maestro Arturo Toscanini e seu genro, o virtuose do piano Vladimir Horowitz.

(Quando o ouviu pela primeira vez, Horowitz disse: "Não posso acreditar no que estou vendo".) Certa noite, Tatum, que era praticamente cego, entrou num clube de Nova York. Fats Waller, que estava tocando, ficou imediatamente de pé ao lado do piano e anunciou: "Eu toco piano, mas Deus está aqui esta noite". Já o grande romancista beat, Jack Kerouac, costumava chamar de Deus o pianista inglês (também cego) George Shearing. Mas estes deuses do piano - com seus egos inflados, muitas vezes maiores que o piano - também podiam ser irados. Certa vez, Art Tatum chamou Bud Powell de "pianista de uma mão só", a direita. Na noite seguinte, diante de Tatum, Bud tocou Sometimes I"m Happy numa velocidade inacreditável, somente com a mão esquerda. Correu até a lenda de que Bud teria esfaqueado e enfaixado a mão direita para se obrigar a tocar só com a esquerda.

A tentação da autossuficiência era imensa, pois o pianista tinha em mãos um instrumento que era uma verdadeira orquestra, com suas 88 teclas. Muitas ocasiões apontaram para a emancipação, mas o marco de libertação do piano solo é considerado a quinta-feira 24 de janeiro de 1975, quando Keith Jarrett, aos 29 anos, se apresentou na Ópera de Colônia, Alemanha. O concerto tinha tudo para dar errado: sua promotora era uma garota de 18 anos, o piano de cauda Bösendorfer 290 Imperial foi trocado equivocadamente por um piano de meia cauda que mofava nos bastidores. Jarrett chegou cansado de uma longa viagem dirigindo um calhambeque e após uma refeição rápida ficou chocado ao ver o péssimo instrumento. Quase desistiu. Na última hora, os técnicos de som colocaram microfones para gravar a apresentação, pelo menos para os arquivos da sala. Assim nasceram muitas obras-primas, de situações adversas. The Köln Concert tornou-se o best-seller dos álbuns solo e álbuns de piano do jazz, beirando os quatro milhões de cópias vendidas.

Às vésperas de completar 66 anos - a mesma minutagem de The Köln Concert - Jarrett voltou às maratonas solos, na turnê intitulada An Evening of Solo Piano Improvisations, que incluiu São Paulo e Rio. Ele fecha o ciclo dos "professores", agora Ph.Ds. nestes bordéis mais sofisticados que são as salas de concerto. Em suas explorações do mito da improvisação absoluta, Keith Jarrett comenta sobre os riscos da empreitada. "Tocar solo é como pular de um rochedo sem saber o que há lá embaixo, pedra ou água."

Já vai longe a época da ingênua happy hour do "piano ao cair da tarde". Nestes tempos de crise, vivemos e celebramos a era do "piano à beira do abismo".

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