A era do bedelho universal

Ou muito me equivoco, ou nunca passamos por um período tão rico em normas e prescrições quanto o presente. Acho que deveria até silenciar sobre o que, segundo li num jornal, vigora na Suécia, porque, para tudo quanto é novidade adotada na Suécia (menos a ausência de mordomias oficiais, pois quanto a isto preferimos nosso atraso mesmo), aparece logo um alegre querendo implantá-la aqui. Refiro-me ao fato de que lá, de acordo com o jornal, o homem que fizer sexo sem camisinha é considerado réu de estupro. Não lembro se isso ocorre mesmo quando a parceira concorda ou se os casados têm de obter um alvará especial, mas essa história de Suécia pega muito nos progressistas nacionais, de maneira que deve ser bom negócio começar a comprar ações de fabricantes de camisinhas.

João Ubaldo Ribeiro, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2011 | 00h00

Podemos ainda não ter adotado o estupro descamisado como figura delituosa, mas já marchamos para a existência de cuecas, calcinhas e sutiãs ilegais, ou seja, os que não tiverem etiquetas nos lembrando, conforme o caso, a necessidade de exames periódicos de próstata, útero e mamas. Como a lei ainda não foi regulamentada, é possível que venham a ser criados fiscais de roupa de baixo, com o direito de exigir, sob pena de pesada multa, a verificação da legalidade até do mais provecto ceroulão ou do mais venerável calçolão. Em matéria de geração de empregos, é uma medida de larguíssimo efeito, capaz de aliviar a pressão sobre os inúmeros militantes dos partidos da base aliada ainda desempregados. E é claro que a ideia deverá prosperar para outras áreas, pois o cidadão não sabe cuidar de si mesmo e precisa de orientação constante para não pôr em risco sua saúde ou a do semelhante, mesmo quando não queira ou não ache que está correndo risco nenhum.

A tecnologia necessária para o muito que poderá ser feito somente no setor de roupa de baixo desafia a imaginação, mas antecipo que pelo menos se adotará, por exemplo, a certificação da dedada. O homem que estiver em dia com seu exame de próstata deverá, antes de envergar a cueca, passar um cartão magnetizado nela, o que provará, junto à autoridade competente, o cumprimento desse dever médico. Se o sujeito não passar o cartão, ou se ele estiver vencido, a cueca começará a apitar sem cessar, forçando o infrator a submeter-se ao exame imediatamente ou a ter um problema com um índio querendo apito que esteja por perto. O mesmo, naturalmente, acontecerá com a calcinha da negligente que esquecer o exame de colo de útero e com o sutiã da réproba que não fizer mamografia. Para os recalcitrantes, as peças de roupa podiam acrescentar também avisos luminosos e assim saberemos que aquela senhora cujos peitos piscam em várias cores é na verdade alguém que vergonhosamente não cuida de sua saúde como o governo estabelece. E por que não um monitor eletrônico do governo em cada cueca e cada calcinha? Hoje em dia, qualquer um pode estar onde quiser, sem que o Estado se faça presente quando necessário, até mesmo para a cobrança de futuros tributos indispensáveis para o governo manter-se. Por exemplo, monitor indicando motel, dez por cento de taxa de sexo - a popular caixinha do corno.

Tão fantasticamente avança a tecnologia, que o Estado vai ingressar, mais dia menos dia, num terreno irresistível, que é o de regular a vida sexual do cidadão. Como está, sem normas e sujeita a todo tipo de distorção, preconceito e noção errônea, a vida sexual dos brasileiros segue desgovernada e sem parâmetros claros para se orientar. Isso só pode resultar em sérios problemas de saúde e de comportamento, no terreno delicado que já foi eloquentemente definido como nosso "plus". Ousaria mesmo dizer que os brasileiros e brasileiras, de todas a camadas sociais, não dispõem de padrões normais em que enquadrar sua conduta sexual, sendo, pois, infelizes, mesmo que não saibam.

Tenho certeza de que, na cabeça de algum tecnocrata, germina um mundo ideal, onde ninguém tivesse problemas sexuais, mediante a aplicação de medidas para as quais já existe tecnologia, ou está prestes a ser criada. Resta apenas definir o que é certo, o correto. A convicção de que existem verdades científicas imutáveis, inabaláveis e indiscutíveis, inclusive quando envolvem valores, parece bem arraigada nos tecnocratas que ora mandam em nós, da farmácia ao aeroporto. Ou seja, bastaria uma comissão especial ser formada pela Anvisa, para a coleta das últimas verdades científicas aplicáveis. Viriam daí a conjunção carnal otimizada e o complexo conceito legal de "ortocópula" ou, no dizer d"outros, "ortocoito". Todo brasileiro e toda brasileira, como agora se diz, teriam direito ao ortocoito, devendo dirigir-se ao posto de saúde mais próximo no caso de um discoito, ou, pior ainda, uma cacocópula. Certas práticas heterodoxas precisariam receber autorização especial, até que ficasse demonstrada compatibilidade com o ortocoito. Os celulares podiam ser programados (acho que alguns já podem) para monitorar funções orgânicas, tais como batimentos cardíacos, pressão arterial e respiração, assim denunciando com uma sinetinha que a mulher de alguém estava fingindo orgasmo. Não valeria dizer que fazia parte do brinquedo e que o casal estava satisfeito assim mesmo. Seriam os falsos felizes, para cuja inclusão na normalidade trabalharia um exército de técnicos e voluntários.

Sei que vocês pensam que brinco, mas não brinco. Brinco somente um pouco e o que parece mera fantasia pode muito bem não ser. Outro dia, li sobre uma hipotética "sociedade sem mentiras", tornada possível pela disseminação ilimitada de detectores de mentiras sofisticados, práticos e, ao contrário dos antigos, eficazes. Ingênuo, quem pensa que isso é bom. Já não vamos poder nos refugiar nem dentro de nós mesmos. E enlouqueceremos, claro.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.