A era de Lotus

O renomado Steven Ellison, ou Flying Lotus, volta com um disco silencioso após causar abalos sísmicos na eletrônica mundial

ROBERTO NASCIMENTO, O Estado de S.Paulo

29 de setembro de 2012 | 03h10

A cristalização de uma sonoridade única em influência global é raridade nos dias de hoje, e no caso de Steven Ellison, conhecido mundialmente como Flying Lotus, tem suas arapucas. O que fazer em um novo disco, por exemplo, quando se é o padroeiro de uma cena inteira (Los Angeles, no caso) de produtores influenciados por sua música; quando sua obra é uma mina de ouro para a crítica por ter se consolidado como o nítido elo entre soul, hip-hop futurista, jazz experimental e os modernismos do dubstep autoral - uma brilhante e inovadora síntese de música negra, diga-se, em uma era de ideias escassas, prenhe de artistas que constroem carreiras inteiras sobre reformulações do passado? Em suma, o que fazer em um novo disco, quando já o batizaram de "Hendrix" de sua geração, e Thom Yorke faz parte de seu eleitorado?

Se você é Flying Lotus, você pisa, ou tenta pisar, no breque. "Eu gosto da ideia de me segurar. Eu fiz uma declaração grandiosa (no disco Cosmogramma, de 2010) e agora quis fazer uma declaração silenciosa. Quis extrair toda a gordura e criar uma história pequena, enxuta, em vez de contar novamente a história da origem do universo", disse, em entrevista à revista inglesa Wire deste mês. Comparar Cosmogramma a um big bang não é exagero. Quando saiu, o disco foi o inevitável e virtuosístico ápice de um estilo. Batidas complexas, construídas sobre um emaranhado frenético de solos de baixo, tessituras orquestrais e outros delírios de beatmaking; faixas maximalistas que chegavam a ter até 80 camadas; um hit cantado por Thom Yorke que solidificou a reputação de Ellison como herói da vanguarda global. Tais elementos coroavam uma obra que teve raiz no hip-hop do cultuado J Dilla e nas produções de Dr. Dre, tornou-se distinta com a sagaz manipulação de recursos digitais, e amadureceu em dois excelentes discos, 1983 e Los Angeles - estes últimos, feitos na época em que Flying Lotus ainda era um ás do underground e sua música possuía uma inconsequência adolescente difícil de ser reconstituída agora que o produtor preside sobre uma cena inteira (vide os lançamentos de sua gravadora, a Brainfeeder).

O que nos traz a Until the Quiet Comes, novo disco de FlyLo que chega às lojas virtuais nesta terça-feira. Como o próprio explicou, trata-se de um exercício controlado, que originou da ideia de produzir música para crianças, e que almeja resgatar a euforia, inerente ao desenvolvimento infantil, em descobrir novas cores, sons e sensações. O êxito de FlyLo nesta empreitada depende do ponto de vista. Sob o olhar literal, Quiet é realmente um beabá de Flying Lotus. Todo o suingue digital-psicodélico de sua música é decupado ao ponto de ser compreensível à primeira ouvida (quem conhece Cosmogramma sabe que este não é sempre o caso, e que "que diabos estou ouvindo" é a reação mais comum quando se trata de Flying Lotus). Isto resulta em faixas classudas, como All In, que abre o disco com uma batida de soul sessentista filtrada pelo caleidoscópio lotusiano, e outras, com participações de Erykah Badu e Thom Yorke. Já sob um olhar que leve em consideração a vibração de seus discos anteriores, Quiet soa parcialmente refém de um mundo mágico, cuja existência, por si só, justifica a raison d'être do disco. Explico: a fauna e flora digital concebida por Steven Ellison é tão arrebatadora que parece inconcebível que sua música habite outro lugar. Assim, para cada excelente batida em Quiet - e há várias, finíssimas - há uma em seus discos anteriores que soa mais inevitável e subversiva. Ellison já deixou claro que este não é o intuito do disco. Mesmo assim, as arestas aparadas de Until The Quiet Comes ilustram o equilíbrio de um artista de vanguarda que agora integra o status quo.

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