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'A Entrevista' mostra mundo das celebridades para além das aparências

Peça estreia nestra sexta-feira, 16, com os atores Herson Capri e Priscila Fantin no elenco

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES - O Estado de S.Paulo,

16 de novembro de 2012 | 02h06

"Por favor, não revele o final", rogou Herson Capri - não só uma, mas seguidas vezes - enquanto falava sobre seu novo espetáculo. Natural que ele se preocupe em não estragar a surpresa do público de antemão. Mas seu zelo tem uma razão a mais.

É a própria maneira como foi urdida A Entrevista, peça que ele estreia nestra sexta-feira, 16, que demanda uma plateia de "incautos". Seres capazes de se surpreender não apenas com o que se dá no palco, mas também com a dissolução gradativa de suas certezas.

Um jornalista experiente, reconhecido comentarista político, recebe a missão inglória de entrevistar uma atriz de televisão: bonita, loira, desejável e, certamente, fútil. "Incapaz de concluir uma frase", crê o arguto repórter Pierre Peters.

A situação delineada lida com preconceitos. Não só os do protagonista, mas também com ideias tão difundidas e arraigadas que tomamos por verdade sem questionamentos maiores.

O que, afinal, se deveria esperar de uma estrela de telenovelas? Ela tem 20 e poucos anos, corpo delineado com esmero por cirurgiões plásticos e uma extensa, - bem extensa mesmo - lista de casos amorosos. Fácil conceber uma imagem. Difícil é perceber que o diagnóstico tão convincente pode ser falho, impreciso, equivocado.

Mariah, interpretada por Priscila Fantin, tem apreço pela fama. Gosta dos holofotes, não se furta a aparecer em revistas de fofoca nem a se expor. Expor o quê? Baseada no filme de Theo Van Gogh, a peça desenha uma mulher segura de seus atributos, capaz de infiltrar-se no mundo das celebridades para dele tirar vantagem. Não uma tola que se deixa seduzir pelo "sistema". Mas uma artista ardilosa, que sabe muito bem o que mostrar e o que esconder. "Ela manipula essa imagem. Não se importa que as pessoas acreditem que ela é isso, porque aí está livre para fazer o que quiser", define Priscila.

Familiarizado com o universo das celebridades, Daniel Filho assistiu ao filme e teve a ideia de transpor o argumento para o teatro. Descobriu que, antes dele, um produtor alemão já havia providenciado uma versão para os palcos. Seu trabalho, então, foi o de adquirir os direitos e entregar a direção a Susana Garcia.

A despeito da origem holandesa, o enredo soa estranhamente familiar, quase feito sob medida. A avidez e interesse com que se passou a acompanhar a rotina de centenas de "famosos" é diretamente proporcional ao desprezo que certa parcela da população - a parcela dita intelectualizada e esclarecida - devota a essas figuras.

O personagem de Herson Capri não se interessa pelo consumo desenfreado dessas histórias banais e cenas de felicidade fabricada. "Chega arrogante, colocando-se como superior", comenta o ator. Mas termina por surpreender-se. "Encantado por essa mulher rápida, sagaz e tão parecida com ele."

Descoberto após uma série de fraudes, entrevistas inventadas e furos jornalísticos forjados, Pierre foi afastado de seu antigo posto. Tem-se em alta conta. Sabe-se, igualmente, um fracassado. Mariah, por sua vez, não tem grande convicção de seu talento como atriz. Isso não lhe importa. Ela sabe como conseguir tudo aquilo que o sucesso poderia lhe dar.

Foram ambos enganados pelas aparências. Em essência, descobrem-se perturbadoramente semelhantes. Estão sozinhos. Marcados por experiências de mortes e de perdas. Armados para a vida. Nenhum deles é capaz de acreditar em alguém, de entregar-se a quem quer que seja. Ríspido e direto, o diálogo entre os dois se arma como batalha de estrategistas. Armas em punho, escudos à frente do corpo.

Algumas frestas, contudo, vão sendo abertas. Mariah confessa o tamanho do vazio deixado pela ausência da mãe que pouco a visita, o pai que não conheceu, o noivo pelo qual tenta demonstrar uma paixão inventada. Ex-correspondente de guerra, Pierre foi ferido em um atentado à bomba. Eis a menor de suas cicatrizes: segue atormentado pela filha que morreu ainda criança, pela mulher que se matou.

Um encontro de um par como esse pode, decerto, abalar convicções. Restará a cada espectador descobrir qual a sua potência de miná-las.

A ENTREVISTA

Teatro Vivo. Avenida Chucri Zaidan, 860, Morumbi, 7420-1520.

6ª, 21h30; sáb., 21 h; dom., 19 h. R$ 50/ R$ 70.

Até 16/12.

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