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Ignácio de Loyola Brandão
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A emoção do escritor diante do pontapé inicial

Me entregaram a camiseta grená da AFE com o n.º 11 e acima dele, meu nome. Bela ideia, pois 11 é o número de minha cadeira na ABL

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S. Paulo

24 de maio de 2019 | 02h00

Para Chico Buarque, 

Prêmio Camões

 

Na tarde de 14 de março, terminada a minha eleição para a Academia Brasileira de Letras, eu estava no jardim da casa de Cicero Sandroni, no Rio de janeiro, quando um araraquarense não identificado ligou para o celular da Marcia. “Diga ao Ignácio que parece que a nossa cidade ganhou a Copa do Mundo.” Era muita excitação naquele momento, muita gente em volta e infelizmente não tivemos como identificar a pessoa. O prefeito Edinho Silva foi o próximo e, desde então, a cidade foi se juntando a mim naquela casa do Cosme Velho, cheia de acadêmicos e amigos.

As comemorações continuam. E uma delas foi especial. Uma mensagem do Carlos Salmazo, presidente da Ferroviária, meu time, compensou o silêncio da Unesp, do Eeba e do Colégio Progresso, lugares tão ligados a mim. Foi na Unesp que transformei em livro as 40 cadernetinhas que trouxe de Berlim, criando um de meus livros favoritos, O Verde Violentou o Muro. Escrevi na sala do professor Carlão, cedida pelo Jorge Nagle.

Disse-me Salmazo: “Você aceita dar o pontapé inicial do jogo AFE contra o Joinville, o nosso primeiro no Campeonato Brasileiro?”.

Aceitei, sei a importância do pontapé inicial. É uma honra. Desde os anos 1950 sigo o time grená, convivi com Bazani, Pio, Fia, Pixo, Boquita, Cardoso, Fogueira, Dirceu, os goleiros Machado e Sérgio, com o zagueiro Fernando, com Passarinho, Teia, Maritaca, e outros tantos que fizeram história. Nunca mais esqueci a tarde de 15 de abril de 1956, quando a AFE derrotou nosso maior inimigo por 6 x 3, subindo para a Primeira Divisão. Bazani, que batia faltas indefensáveis, comandou nosso time no curso científico e me mandou um dia para o gol. Apavorei-me. “E se vem um petardo?” Ele me tranquilizou. “Estou no meio do campo, nenhum bola vai chegar em você, a não ser as atrasadas. Não pegue bola atrasada com a mão.”

Quatro de maio deste ano, final da tarde. Seria minha primeira ida à Arena, antigo estádio da Fonte Luminosa. Bem, certa vez, levado pelo Edinho Silva, visitei a Arena, orgulho dele, no final das obras e fiquei encantado, ainda que me tivesse vindo uma nostalgia das noites geladas na velha geral de madeira que ficava do lado das antigas oficinas da EFA. Fanáticos, lá estávamos, meu pai, meu tio José e maldizíamos o vento. Nunca mais, nunca mais, jurávamos. Jamais cumprimos.

Na minha chegada ao campo, estávamos ansiosos, eu, Daniel, André, Rita, os filhos, Pedro e Lucas, netos, Diogo, genro, Marcia, minha mulher. Era experiência nova para todos. Só faltaram batedores. Salmazo, Betão e o prefeito Edinho foram me levando, atravessei o gramado, desci para os vestiários, os jogadores passaram, nos cumprimentamos, vieram o trio de juízes e o diretor de futebol, um homem alto, sorridente, efusivo. Eu disse: te conheço de onde? Ele riu. Reconheci Roque Junior, passou pelo Palmeiras, Milan e pela Seleção Brasileira. Fui aos vestiários, me vieram visões do time dos anos 50 e 60 e também recuperei a tarde em que fui aos vestiários, depois da Ferroviária ter dado um vareio, como se dizia, no Santos, com Pelé e tudo. Tem gente que não acredita, mas eu desci e o Júlio Mazzei, o preparador físico do Santos, professor revolucionário na educação física, veio me sussurrar: “Sabe o que o Pelé me disse, rindo? Acaba com esse jogo, professor, senão vai ser um desastre”. Lendas da cidade. 

Mas agora, na tarde para mim histórica, eu estava no gramado, alinhado entre as equipes, ouvindo o Hino Nacional. Os times se colocaram, fiquei no centro, me preparando para o pontapé inicial. Foi quando vi entrando em campo o Fogueira, lateral esquerdo, e o Pio, ponta-esquerda de um time que marcou época. Vieram até mim e me entregaram a camiseta grená da AFE. Pio virou a camiseta e me mostrou o número, 11. Acima do número, meu nome. Que bela ideia tiveram. Pois 11 é o número de minha cadeira na Academia Brasileira de Letras. O público aplaudiu, uma faixa correu pelo estádio: “Homenagem ao primeiro araraquarense a se tornar imortal na Academia Brasileira de Letras”. Quando a Academia iria imaginar que seria aplaudida pelo povo em um estádio? Olhei para o alto, para as gerais agora de concreto e vi meu pai e meu tio José acenando. Vivos, teriam hoje uns 110 anos. 

O juiz, meio incrédulo, me perguntou: “O senhor sabe dar um pontapé inicial?”. Fiz que sim, sabia que tinha de dar para trás. Olhei, o ponta-esquerda da AFE sorridente me olhava, eu disse: “Vem para perto, para a bola chegar em você”. O juiz apitou, olhei a bola, virei-me e toquei para o ponta. 

Nessa hora, quase disse: “Lance para a área que vou em direção ao gol, mato no peito e chuto no canto oposto do goleiro”. Sou cheio de realidades idealizadas. Mas tive medo de ele responder: “Só acho que o senhor vai chegar à área no final do primeiro tempo”.

Quantos escritores conhecem o fluxo de emoções que o pontapé inicial provoca? 

Subi para a tribuna, ansioso, com medo de o meu time perder e eu ser olhado como o Mick Jagger, um pé-frio. Veio um pênalti contra a AFE, o goleiro pegou. Alívio. Ganhamos o jogo. Alguns sonhos venho realizando ao longo da vida. Não tenho pressa. Nem imaginam quantos ainda tenho. 

Fui jantar com a camiseta 11. No restaurante Ulivi me perguntavam: “Veja só, assinou com o time?”. Respondi: “Não, com a imortalidade”. Mais tarde, em casa, consultei a numerologia. O 11 é um número espiritual e de intuição, o idealismo, o perfeccionismo, a colaboração. Caracteriza os inventivos, capazes de iluminar o mundo por meio de ideias. Não por acaso, foi a cadeira de Celso Furtado, Darcy Ribeiro e Hélio Jaguaribe. Que responsabilidade a minha! Que os acadêmicos, confrades, me ajudem.

PS: Quem conhece literatura sabe que devo o título dessa crônica ao escritor alemão Peter Handke.

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